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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

A natureza do trabalho de Deus! O que é mesmo que Deus fica fazendo?

Procurar entender um texto bíblico é sempre uma arte e um presente que Deus nos dá. Por vezes até, um presente difícil de ser desempacotado. Ao voltar, neste artigo, ao relato da criação procuro entender, uma vez mais, o texto que está bem no início da Bíblia e diz “a terra era como uma massa sem forma, um vazio sem fim, uma escuridão quase palpável” (Gênesis 1:2 MSG). Ao procurar discernir o que chega mais perto deste quadro a minha memória me leva de volta a uma comunidade indígena, localizada nas montanhas do Equador, que havia passado por um terremoto. Caminhando por entre os escombros deixado pelo mesmo eu via as casas destruídas, os caminhos impedidos e pedras espalhadas por todo canto. Um caos! Uma agonia! Uma ausência de ordem, acolhimento e segurança. O “mundo virado de cabeça para baixo”, por assim dizer.


Este cenário me ajuda a visualizar Gênesis 1, ainda que lá se fale de vazio e de trevas. Para logo afirmar que o “Espírito de Deus pairava sobre o abismo das águas” (Gênesis 1:2 MSG), numa descrição da presença ativa de Deus. Uma presença transformadora e passo a passo, dia a dia, um novo mundo vai emergindo.


Ao lembrar da minha caminhada pelos escombros daquele terremoto, recordo ter sido acometido por um sentimento de impotência e eu me perguntava onde encontrar forças para recomeçar. Era muita coisa. Primeiro seria preciso limpar o espaço. Separar os escombros. Então seria o tempo de reconstruir as casas, planejar espaço para os lugares públicos e as vias de comunicação. E que tal deixar espaço para um parque onde as crianças pudessem correr? Um quintal onde algumas verduras pudessem ser plantadas e árvores frutíferas cultivadas. É, eu precisava reconhecer, que não seria impossível reconstruir a comunidade, e possibilitar ao pessoal que ainda estava acampado debaixo da lona preta, uma vida em suas próprias casas.


Quando o relato bíblico da criação termina, um novo mundo acabava de ser construído. É significativo observar que ao entrar no seu descanso, o texto diz por três vezes seguidas que a obra de Deus havia sido concluído até “os últimos detalhes” (2:1 MSG), como Eugene Peterson o traduz. Vamos olhar isso um pouco mais de perto.


Num primeiro momento a ação de Deus é intervencionista. Ele põe ordem no caos, por assim dizer. Neste momento vemos a luz emergindo e uma separação entre o dia e a noite tendo lugar. As trevas já não são uma realidade absoluta. A seguir vemos a separação entre o firmamento e as águas, seguido da separação entre a terra seca e os mares. Agora, vemos um cenário onde a água já não está por todos os lados, mas a terra seca e os mares estão devidamente separados e cada um tem o seu espaço. Para encerrar a descrição deste momento, ainda se testemunha a criação do sol, da lua e das estrelas para, como diz o texto, governar o dia e a noite e marcar estações, dias e anos. Vários dias se passaram mas o espaço, por assim dizer está limpo e ordenado. Tem dia e tem noite. Tem terra e tem água. Tem sol e tem lua. E tem as diferentes estações a demarcar diferentes jeitos de viver e conviver com a própria natureza.


Num segundo momento o espaço criado é habitado. Plantas e árvores, com suas sementes e seus frutos, passam a fazer parte da paisagem que ainda recebe diferentes tipos de aves a povoarem os céus. Enquanto isso os peixes e diferentes animais marinhos passam a povoar os mares formando um quadro que hoje descreveríamos como completo: a terra, os ares e os mares já não são espaços desertos mas tem vida neles. Vida a prover proteção, provisão, multiplicação e beleza. Mas isso nos leva ao próximo momento.


Neste terceiro momento, testemunhamos a criação do ser humano – “homem e mulher os criou” (Gn 1:27), num convite de Deus para que este ser humano receba dele o dom da vida, a própria criação para dentro da qual ele é criado, e participe no gerenciamento da mesma. Deus oferece ao ser humano o espaço criado por ele, os recursos necessários para a sua sobrevivência, bem como a natureza criada, e os convida a estabelecerem continuidade e participarem dos destinos da própria criação. Isso é dito de forma até poética:


“E, então os abençoou:

Cresçam, Reproduzam-se! Enchem a terra! Assumam o comando!

Sejam responsáveis pelos peixes do mar e pelos pássaros no ar,

por todo ser vivo que se move sobre a terra.’

Depois disse Deus:

‘Dei a vocês todo tipo de planta com semente sobre a terra.

E todo tipo de árvore frutífera;

É para que se alimentem deles.

Para todos os animais e pássaros,

Tudo que se move sobre a terra e respira,

Dou tudo que cresce na terra por alimento.’

E assim se fez” (Gn 1:28-30 MSG).


A criação não é ato isolado, pois Deus a continua sustentando e nutrindo. Se por um momento Deus a deixasse de lado, ela se desintegraria. Aquilo que Deus fez, ele continua fazendo e por isso cá estamos nos alimentando, gerando filhos e filhas, admirando a natureza e procurando cuidar dela. E tudo isso apesar de tudo que temos feito com a natureza, conosco mesmo e até tentamos fazer com Deus. Graças a Deus por sua fidelidade e ele mesmo e pela sua teimosia em nos convidar a ser co-partícipes do cuidado com toda a criação.


E isso que Deus tem feito e faz é o que inspira a reconstruir a vida, mesmo depois de um terremoto, seja literal ou figurado. E com Deus aprendemos como isso é possível: o caos é substituído por um novo espaço para a reconstrução, as sementes são jogadas ao solo e pequenas árvores são transplantadas para que a natureza se reproduza e produza os alimentos dos quais carecemos. Os animais que estão na terra, no ar e no mar fazem parte de uma natureza diversa, bonita e na qual se encontra provisão para todos. É isso que Deus fez e isso que ele nos convida a fazer também. Junto com ele e em adoração a ele.


“Assim foram concluídos os céus e a terra”, nos diz o texto. E Deus mesmo olha para o que fez, sorri e diz que “tudo havia ficado muito bom” (2:1 e 1:31). Deus trabalha. Graças a Deus ele trabalha. E inspirados nele nós também podemos e devemos trabalhar.


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Publicado originalmente na Revista Ultimato, ed. 344

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