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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

No caminho da conversão integral

Redescobrindo a Palavra de Deus


Habite ricamente em vós a palavra de Cristo;

instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria,

louvando a Deus, com salmos e hinos e cânticos espirituais

com gratidão em vossos corações (Cl 3:16).


Com o filósofo Søren Kierkegaard aprendi que “ser santo é querer uma só coisa”. A verdade é que eu sempre quero muitas coisas. Vivo em busca de coisas novas. Pode ser pouco, um livro, coisas materiais, como a troca do carro. Ou então idéias e projetos novos. Mas vivo querendo. Assim, vivo a dispersão e até a superficialidade. Mas tenho de reconhecer que riqueza de iniciativas e quantidade de envolvimentos não é necessariamente a melhor forma de contribuir para a edificação do Reino de Deus. Querer muitas coisas não significa querer a Deus. Ter muitas atividades não quer dizer priorizar as pessoas. Exercer liderança não quer dizer caminhar em amor em direção ao outro, ao pequeno e ao pobre. Assim, vou descobrindo o que Deus quer: que eu seja dele. Que eu viva nele. Que eu o ame e que o sirva. Que eu queira uma só coisa: Ele. E assim, querendo a Ele, eu caminho em direção ao outro. Jesus deixou isso claro: “Buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados” (Mateus 6.33-34).


Deus se dá por inteiro e nos quer por inteiro


Ao abordar a “Redescoberta da Palavra de Deus”, tenho salientado que Deus é alguém que fala conosco de forma significativa e pessoal. A palavra que Deus nos dá é a pessoa de Deus que se dá. A palavra de Deus é presença de Deus e a presença de Deus se expressa na palavra de Deus. Nós separamos a palavra, não apenas da realidade, mas também de nós mesmos. A mentira é assim: palavra dissociada da realidade. Mas Deus não nos dá a sua palavra dissociada da sua realidade e da sua pessoa. Ele dá a si mesmo: “E o verbo se fez carne, e habitou entre nós” (João 1.14).


Deus é amor e a natureza do amor é a doação. E isso Deus faz como só Ele o pode fazer: criar por amor. Restaurar com amor. Na busca do resgate e da restauração, Deus se dá por inteiro. Sem reservas. Dar-se querendo uma só coisa: a nossa vida. A nossa presença diante dele e com Ele. Dar-se em busca da restauração de uma natureza “distorcida” e uma humanidade caída. Dar-se. Deus é santo! Ele quer uma só coisa. Um segredo que Ele vive de forma tão inteira e bonita: dar-se por inteiro a cada um e a todos. Dar-se por inteiro como se tudo fosse uma só coisa – e uma só coisa é.


E isso Ele espera também de nós: que nos demos a Ele por inteiro. Que o busquemos e queiramos. Que Ele nos baste e que toda a nossa vida seja uma expressão da sua realidade e da sua glória. Que a nossa vida se inspire na realidade do amor de Deus e que a partir do encontro com esse amor a nossa vida seja santa, dedicada inteiramente a Ele e que deixemos de viver claudicando, como advertiu Elias: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (1Reis 18.21).


É hora dos panos de saco e das cinzas


Sempre houve, no decorrer da história, movimentos de renovação que surgiram como fruto de um novo encontro com a Bíblia. Deus fala, a conversão acontece e novos movimentos emergem. O encontro com a Palavra de Deus é fonte de esperança. Não há situação perdida. De forma inesperada, Deus atua e faz novas as coisas que julgávamos perdidas. É por isso que há esperança também para nós. É por isso que somos convidados a reencontrar-nos com a Palavra de Deus, para que algo novo possa surgir em nós e entre nós. É por isso que Deus não deixa de chamar-nos para si.


Assim, olhando para uma igreja que tem crescido, como a nossa igreja evangélica, podemos afirmar que Deus quer, não apenas a quantidade, mas também a qualidade desse crescimento. Qualidade ancorada na busca de Deus e no compromisso com o amor e a justiça. Deus não quer apenas a multiplicação dos nossos ministérios, que às vezes só evidenciam a promoção de egos. Ele quer expressão de serviço, buscado em humildade e unidade. Deus não quer que a nossa presença nos diferentes segmentos da sociedade seja ideológica e interesseira, onde os meios não importam e os “sanguessugas” se espalham sob o manto da expansão institucional ou pessoal. Ele quer que a nossa presença nos diferentes segmentos da sociedade seja fermento para o amor e a justiça.


Diante da referência aos políticos evangélicos corruptos nas investigações e jornais, ouvimos Deus falar conosco como nos tempos dos profetas: “Quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” E adverte: “Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa da viúvas” (Isaías 1.15-17).


Temos nos comportado como quem quer muita coisa, e neste desejo desenfreado temos nos contaminado e corrompido. Deus nos chama a querer uma só coisa: ELE. O seu reino e a sua justiça.


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Publicado originalmente na Revista Ultimato, ed. 302

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