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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Oxyrhynchus!? Tem certeza de que o nome é este?

Redescobrindo a palavra de Deus!


O nome é estranho e difícil de pronunciar. (Mas quem tem “Steuernagel” como sobrenome não tem muito de que reclamar...) Oxyrhynchus. Não me lembro de ter visto esta palavra antes, até que me deparei com ela lendo o livro de Eugene Peterson intitulado Eat This Book*.


Oxyrhynchus, diz o autor, fica no Egito e é um sítio muito apreciado pelos arqueólogos e de grande valor para quem se interessa pelo no mundo antigo. Não é um desses lugares famosos e não vale o aluguel de um camelo para ir até lá. Mas foi ali, no ano de 1987, que os ingleses Bernard Grentell e Arthur Hunt encontraram pedaços de um papiro no lixão da cidade. Naquele “pedaço de papel velho” havia algo escrito em grego que lhes chamou a atenção.


Quando começaram a ler, esses homens viram que haviam descoberto um tesouro: aquele papiro trazia uma escrita grega similar àquela que se encontrava também no Novo Testamento! No tempo em que Jesus viveu e a igreja primitiva se estabeleceu, havia enraizados nas sociedades de domínio romano dois tipos de grego. Um era o grego clássico, representado pelos grandes escritores do passado; e o outro era o grego comum, o grego da linguagem de todos os dias –um “grego de supermercado”. Deste, ninguém guardava nada escrito; algo que fosse digno de preservar seria obviamente registrado em grego clássico.


O Novo Testamento, no entanto, teria sido escrito, em grande parte, neste grego popular e muitos estudiosos se perguntavam pela razão deste acontecido e pela sua possível interpretação. “Seria este grego do Novo Testamento um ‘grego do Espírito Santo’?”, até se chegava a indagar. Com o achado desses dois homens, o mistério se desfez; comprovou-se que o grego do Novo Testamento era de fato o grego popular. A linguagem comum do dia-a-dia, o grego do supermercado.


Esta foi uma grande descoberta, a confirmação de algo que já se sabia de outra forma: Deus fala a nossa língua e fala conosco em linguagem caseira!


Quando, fugindo do poder eclesial e escondido das forças policiais no castelo de Warthburgo, o reformador Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, ele teve esta exata intenção de traduzir o texto sagrado para a linguagem do povo. “Você precisa sair e perguntar à mãe na sua casa, às crianças na rua, à pessoa simples no mercado. Observe o movimento das suas bocas quando elas falam e traduza o texto assim”, ele dizia.


O texto bíblico através do qual Deus nos fala, ao qual prestamos a nossa reverência e no qual encontramos tanto mistério vem a nós em linguagem popular e deve ser entendido pelo povo. Vem a nós, não apenas na linguagem da nossa vida, mas na linguagem do nosso coração. Na linguagem da nossa necessidade de salvação. Que fantástico!


Quando aqueles dois ingleses encontraram os pedaços de papiro em que este grego popular estava rabiscado, eles fizeram justamente esta descoberta. Lá estava o grego no qual o Novo Testamento fora escrito! É através desse “dialeto popular” que Deus nos fala, e por isso podemos entendê-lo. Deus fala ao nosso coração e à nossa vida de forma que possamos entendê-lo muito bem e a verdade é que a partir desta sua palavra encontramos o caminho da salvação.


Nos números mais recentes de Ultimato**, a minha coluna tem se intitulado “Redescobrindo a Palavra de Deus”, abordando em cada artigo um aspecto diferente em torno à Escritura. É claro que as abordagens não foram exaustivas, mas o que eu queria estava claro para mim:


  1. Resgatar a centralidade das Escrituras na nossa caminhada de fé e na vida das nossas igrejas;

  2. Deixar que a Escritura geste uma cosmovisão que teme a Deus e sirva ao próximo;

  3. Redescobrir a presença e a direção da ação de Deus, segundo o testemunho das Escrituras, na nossa vida; e

  4. Buscar uma vivência evangélica que faça diferença neste nosso país injusto, corrupto e imoral.


Através destes artigos eu queria celebrar o fato de que Deus fala conosco de tal maneira que nunca devemos nos considerar perdidos. Que Deus vem ao nosso encontro e a sua palavra se constitui em nós em toque de vida. Os nossos passos nunca mais serão os mesmos, pois Deus falou conosco.


Oxyrhynchus! Deus falou conosco na linguagem de nossa vida. Será que a gente está querendo entender e obedecer?


A palavra de Deus tem nome e se chama Jesus Cristo, que á a palavra encarnada de Deus. Jesus Cristo é a evidência de que a palavra de Deus nunca é teórica e é sempre geradora de vida. Jesus Cristo é a evidência de que a palavra de Deus assume forma de amor e que este amor foi demonstrado na cruz de Jesus.


Quando a palavra de Deus nos alcança, isto é sinal de que fomos alcançados por Jesus Cristo e que fomos chamados a seguir Jesus Cristo.Assim, o importante não é sermos vistos com a Bíblia debaixo do braço para atestarmos o quanto ouvimos a Deus. O importante é sermos encontrados no seguimento a Jesus Cristo, como evidente sinal de que ouvimos Deus falando conosco e decidimos responder a esta palavra seguindo a Jesus Cristo.


Oxyrhynchus! Deus falou conosco na linguagem de nossa vida.



*O livro, intitulado em português “Coma Este Livro” (Textus: Niterói/RJ, 2004), não inclui esta parte da publicaçao em inglês à qual faço referência. **Texto publicado na revista Ultimato, edição 304 (Janeiro-Feveiro 2007)


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Publicado originalmente na Revista Ultimato, ed. 304

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