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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Realidade virtual, a explosão religiosa e a fé cristã

É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam ,

nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não

achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão

de anjos... mas a ele não no viram. (Lc 24. 22-23)


Eu sou filho de outra geração!

Eu estou naquela idade que se convencionou chamar de "meia idade". A gente já viveu um bom bocado mas, a considerar a idade média, ainda tem um pedaço razoável pela frente. Mas eu já vivi o suficiente para perceber que sou filho de outra geração. Eu recuo duas décadas e meia e me revejo entrando na Faculdade de Teologia. Na época, a Teologia da Libertação ainda era um filhote e o que mais se respirava eram teologias nascidas no Norte. Na época já se falava da Teologia da Revolução e havia outra onda teológica que raspava os nossos ouvidos e se chamava Teologia da Morte de Deus.


Sou, pois, do tempo em que a teologia queria mostrar serviço a nível da ciência e fazer-se viável a nível da realidade. O que não era "científico" não podia ser levado a sério; o que não era provado não podia ser verdade, o que se dizia absoluto também era relativo e o que não fosse revolucionário não podia ser relevante. Época em que a teologia havia mergulhado no que se chamava de secularização (em contraposição ao secularismo que, de qualquer jeito, conforme se argumentava, já havia aposentado uma visão de mundo na qual houvesse lugar para Deus) e Dietrich Bonhoeffer advogava um tipo de cristianismo que fosse a-religioso (ou seria pós-religioso?).


Depois fui ser obreiro na Aliança Bíblica Universitária do Brasil. Tempo em que a ditadura militar começava a agonizar e se respirava um ar um pouco mais fresco em termos de liberdade de expressão e espaço de manifestação. Nesse contexto, o mundo estudantil, no qual eu me movimentava, perguntava pela relevância da fé cristã em termos políticos e a gente fugia, de várias maneiras, da pecha de que a religião era ópio do povo.


Olhando para esses anos que ficaram para trás, vejo que a minha formação teológica traz as marcas daquele tempo e daquele universo. As grandes perguntas tinham a ver com a busca por uma fé cristã que soubesse conversar com a realidade em termos sociológicos. Dentro deste universo se resgataram conceitos teológicos chaves, como o Reino de Deus, a justiça, a liberdade, o pobre, a comunidade, a hermenêutica e a mediação através da qual a teologia adquirira a sua própria linguagem.


Hoje é o dia da pós-modernidade!

Mas, chegando aos quarenta, eu me vejo entrando numa década que se chama de "os anos noventa". E nesta década as coisas parecem tão diferentes! O muro de Berlim caiu e a revolução na Nicarágua também ruiu. E a tal da modernidade madura, auto-suficiente e independente nada mais é que um navio que está fazendo água. E bota água nisso. O cientificismo balança das pernas, a razão é questionada pela emoção e a lógica é repreendida pela intuição. O mundo parece ter virado de pernas para o ar neste tempo que se chama de pós-modernidade. Eu confesso que não sei bem se este é o tempo da possibilidade da reconstrução ou se vivemos numa espécie de anarquia domesticada e institucionalizada, onde há espaço para tudo e onde tudo vale. O que eu sei, porém, é que vivemos em tempos bastante diferentes. O tempo da realidade virtual, onde não apenas tudo é válido como também onde as coisas valem pelo que aparentam ser e não necessariamente pelo que elas são. Tempos onde a imagem vale mais do que o ser.


Uma das diferenças fundamentais deste tempo no qual vivemos tem relação com o papel da religião. Neste final de milênio, a religião está de volta ao palco, bela e formosa. Rindo de quem a pensou aposentada, descartável. Fazendo chacota de quem pretendia enterrá-la. Não é à toa, pois, que o francês Gilles Kepel escreve um livro intitulado A Revanche de Deus (São Paulo: Siciliano, 1992). E, como ele mesmo diz, "a renovação religiosa revela o vazio sideral deixado pela morte das utopias terrenas, desacreditadas pelo próprios poderes que se proclamavam campeões de sua defesa: terceiro-mundismo, nacionalismo, socialismo, marxismo... - tudo desmoronou".*


A fé cristã vive entre a oportunidade e a suspeita

Quem sabe uma das virtudes desta "meia idade" é que os anos permitem que a gente adquira uma certa perspectiva das coisas. Pensando sobre as minhas experiências de ontem e os meus desafios de hoje, eu concluo que a fé cristã vive numa contínua relação crítica com a forma como o mundo se apresenta em cada etapa e a cada geração. O desafio de ontem requeria de nós que não perdêssemos de vista a transcendência da fé enquanto acentuávamos a dimensão da encarnação dessa mesma fé. O desafio dos nossos dias requer que não se perca de vista o caráter absoluto da fé e a radicalidade conversionista e ética do evangelho.


Assim como os dias de ontem, a realidade de hoje apresenta enormes oportunidades para a tarefa missionária da igreja, pois este é, afinal, um tempo de abertura para a religião, a transcendência e a experiência. As vezes, no entanto, me parece que nós esquecemos que esta é uma oportunidade ao mesmo tempo rica e perigosa. É preciso discernir que a abertura para a religião não é sinônimo de sede do Deus da Bíblia. Que a busca da experiência não nos leva, necessariamente, aos pés da cruz. Que o encontro com a transcendência não quer dizer que houve um encontro real com o Cristo crucificado.


O versículo bíblico com que abri esta minha conversa foi extraído do conhecido texto evangélico tradicionalmente intitulado "Os discípulos no caminho de Emaús". Nesse texto os discípulos, decepcionados, fazem referência a um encontro que não aconteceu. Pois, na busca pelo corpo do Cristo crucificado, dá-se um encontro com anjos, que anunciam que o Cristo já não está morto, mas vivo. Mas, como diz Lucas, "a ele não no viram". O Evangelho de João fala dos lençóis de linho (Jo 20.1ss), que dão a pista mas não concretizam o encontro com o Cristo crucificado. Confesso que um dos temores que eu tenho é que nestes tempos de sede e abertura religiosa nós, como igrejas, não estejamos levando as pessoas para além de um encontro com os "lençóis de linho". Às vezes até estamos promovendo visões e "encontros com anjos". Mas, ao final deste caminho, é sempre difícil e trágico ter de concluir que "a ele não no viram".


A fé cristã quer ir e vai além dos "lençóis de linho" e das "visões de anjos". A fé cristã nasce e culmina no encontro vivo com o Cristo ressurreto, que carrega nas suas mãos as marcas da crucificação. Nada mais e nada menos do que isso. E, se não chegarmos a este encontro com o Cristo da cruz, tudo o que temos é movimento religioso. Realidade virtual com gosto falso de experiência cristã.


Seja, pois na modernidade ou na pós-modernidade, a nossa vocação é para a fidelidade a Deus e à sua Palavra. E caminhar nesta fidelidade significa discernir os tempos da oportunidade e relacionar-se com uma perspectiva profética. Portanto, o tempo de andar na contramão do tempo para andar na mão do kairós, do tempo de Deus, ainda não acabou. O vento, é verdade, está forte. Mas o cristão está acostumado a este tipo de vento.

 

*Giles Kepel, em entrevista ao semanário francês Le nouvel Observateur, citado na contracapa de A Revanche de Deus


 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.

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