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  • Foto do escritorSilêda Silva Steuernagel

Como posso ter certeza?


Olá! Eu sou Silêda e este é o EntreLinhas, um podcast de encontros, conversas e orações.


Hoje é o dia que, no calendário cristão, é chamado de Primeiro Domingo de Advento. É o primeiro dos quatro domingos que antecedem o dia de Natal e que, em algumas tradições, são celebrados como preparação para a chegada do Filho de Deus ao mundo, no Dia do Natal.


Eu não conhecia essa tradição, até que me casei com o Valdir. O primeiro Natal que passei com a família dele, em Joinville-SC, foi uma completa surpresa para mim. Era uma agitação de lavar o chão e esfregar as janelas e pintar as paredes e enfeitar a casa e fazer guloseimas antes do dia de Natal. E, na igreja, acendiam as velas da coroa de Advento cantando hinos que falavam da vinda de Jesus mas ainda não eram hinos de Natal...


Eu nunca tinha ouvido falar nessas coisas.

Sou nordestina e cresci num ambiente que tinha costumes muito diferentes do luterano, catarinense de descendência germânica, que conheci no Sul e se tornou o meu parceiro de vida e vocação. Venho de uma família humilde do interior do Maranhão, que gosta de se reunir para cantar e contar histórias. Minhas primeiras memórias trazem sempre a música, a leitura da Bíblia no culto doméstico e os “hinos da família” cantados a quatro vozes numa roda de conversa em volta da mesa ou sentados embaixo duma mangueira. Quando o Natal se aproximava a gente começava a cantar hinos de Natal. E no dia de Natal a gente encenava as histórias do nascimento de Jesus... e cantava! Natal, para nós, era ir à igreja na noite de Natal e celebrar, em comunidade e em família, a chegada de Jesus ao mundo para nos trazer salvação. Família simples e de poucos recursos, meus pais nos ensinaram que o nosso presente era JESUS. E quando acontecia ganharmos um presentinho, era uma surpresa e uma festa! Como se papai e mamãe tivessem ganhado na loteria...


Hoje tem o Black Friday, que (não por acaso) antecipa o 1 o Domingo de Advento e se estabeleceu como “o grande evento” que chegou para facilitar a nossa vida, trazendo novidades incríveis e revelando oportunidades imperdíveis que irão alegrar os festejos natalinos com presentes de valor incomparável, acessíveis para qualquer um.


Por falar em anúncios e surpresas, a história que nos é trazida à memória com a chegada do Advento é, toda ela, marcada por surpresas e sustos inesperados. O mais relembrado deles é o episódio conhecido como A Anunciação, quando o anjo surpreende a jovem virgem Maria com o anúncio do nascimento de Jesus. E tem o anúncio a José, e o surgimento da estrela que orienta os magos, e a aparição dos anjos aos pastores de Belém... O nascimento de Jesus é uma sucessão de sustos e notícias inesperadas.


Bem antes, porém, daquele dia em que o anjo surpreendeu uma virgem adolescente com uma notícia completamente inesperada – “Maria, você vai ter um filho!”, e antes de ele aparecer a José em sonhos, já havia acontecido uma outra Anunciação. Em outro lugar, meses antes de José e Maria saberem que seriam os pais terrenos do Filho de Deus, um homem idoso e casado com uma mulher estéril levou um susto enorme quando um estranho lhe apareceu subitamente em pleno expediente de trabalho, trazendo uma notícia absurda: “Zacarias, você vai ser pai!” A história deste outro casal, escolhido por Deus para serem protagonistas coadjuvantes na história bem mais ampla que Deus vinha traçando há muito tempo com o seu povo, também começou com um grande susto.


Zacarias, conta Lucas no início do seu Evangelho, era um homem piedoso, cheio de anos e de experiência. Ele e sua esposa descendiam de uma família pastoral tradicional, de gerações de filhos e netos e bisnetos separados por Deus para exercer o ministério sacerdotal no templo do Senhor. Zacarias e Isabel eram conhecidos na comunidade como pessoas de reputação impecável, pois “ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor”.


Mas havia um senão: Eles não tinham filhos.

Este senão Zacarias carregava dentro do peito ano após ano, junto com uma pergunta que nunca o abandonava. E nos momentos quando ele ministrava no templo e orava pelo seu povo, pergunta incômoda voltava a incomodá-lo:

Por que Deus não responde a minha oração?!


Zacarias fazia parte de uma “equipe pastoral”, como acontece em muitas das nossas igrejas hoje. No contexto do povo de Israel, essa equipe era composta de sacerdotes e levitas, que serviam no templo em turnos. Certa vez, durante o seu turno, Zacarias foi sorteado para oferecer o incenso no templo. Este era um raro privilégio, pois entrar no Santo dos Santos e oferecer o incenso era um ritual sagrado que só acontecia uma vez por ano e era ministrado por um sacerdote sorteado para este fim.


Naquele dia, enquanto Zacarias estava orando lá dentro, e o povo todo orando do lado de fora, algo totalmente inesperado interrompe a liturgia sagrada, como quando uma criança entra correndo na igreja no meio da pregação gritando “pai! olha o que eu achei!” e atrapalha a ordem do culto. Pois subitamente, bem no momento em que Zacarias ergue o incensário para orar pelo povo, alguém aparece do nada, ao lado do altar, e anuncia: “Zacarias, sua oração foi ouvida!”.


Sua primeira reação não foi de alegria, mas de pavor. Afinal, que homem inteligente e em sã consciência, zeloso da sua reputação e da sua autoridade, fica por aí vendo anjos? Mas o anjo está ali, bem na sua frente, parado à direita do altar do incenso e falando com ele! Diz o texto que quando Zacarias o viu, perturbou-se e foi dominado pelo medo. E ainda mais quando o anjo o chama pelo nome e dá nome à sua fraqueza: “Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida.”


O texto bíblico não diz que Zacarias estava orando por um filho. Na verdade, a gente depreende isso pela descrição que traz um tom de frustração e de “águas passadas”, ao dizer que ambos eram de idade avançada. O “MAS”, aliás, parece apontar para uma incoerência: ser “justo e irrepreensível diante de Deus” não combinava com o fato de eles não terem sido abençoados e agraciados por Deus com um filho! A reação de Zacarias denuncia não só a sua incredulidade mas também a sua resignação diante dos fatos: “Sou velho”, ele diz, “e minha mulher é de idade avançada”. A notícia trazida pelo anjo só pode ser fake news!


Se considerarmos os costumes do povo de Israel, naquela hora Zacarias devia estar orando pelo seu povo. Orar pelo povo ao apresentar o incenso no altar de Deus continha um dos importantes elementos da oração judaica, reivindicando a antiga promessa de Deus de que um dia Ele iria mudar a sua história, trazer-lhes salvação e presenteá-los com um momento novo, de restauração. Assim podemos deduzir que a declaração do anjo contemplava tanto a oração pessoal de Zacarias quanto a oração pelo seu povo.


Depois de dizer que a oração de Zacarias foi ouvida, o anjo acrescenta o detalhe que faz disparar o coração do velho sacerdote: “Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João.”


Por essa Zacarias não esperava! Ou melhor, deixou de esperar. Cansou de pedir! Durante anos e anos, ele havia orado ardentemente, implorando a Deus que lhe desse um filho... e nada!


O pastor Ricardo Barbosa, no seu recente livro intitulado Quando a alegria NÃO vem pela manhã, sobre a oração não respondida, compartilha com muita transparência e sinceridade a experiência profundamente dolorosa da perda do seu filho, depois de 14 meses orando que Deus o curasse. Mas a cura não veio. Para Zacarias, também, a alegria nunca havia chegado. O ansiado filho não veio; e agora, com essa idade, não dava mais. Mas ali está o anjo, chamando-o pelo nome e dizendo que sua oração foi ouvida!


O evangelista Leighton Ford, em seu livro intitulado ATTEMPTIVENESS, cita um poema no qual a poetisa Ann Lewin compara a oração com a expectativa de alguém que espera ansiosamente enxergar um martim-pescador. O martim-pescador é um pássaro de rara beleza, de plumagem colorida e exímio caçador, que gosta de ficar isolado e foge da presença de humanos. O poema diz assim:


Orar é como esperar pelo martim-pescador. Tudo que se pode fazer é ficar ali onde pode ser que ele apareça. E esperar. Geralmente nada de mais acontece. Há espaço, silêncio e expectativa. Nenhum sinal visível. Só sei que ele já esteve ali antes e pode ser que venha de novo. Ver ou não ver já nem importa mais; com isso eu já contava. Mas quando eu quase havia desistido de esperar, um brilho súbito no ar traz encorajamento!

Como o amante de aves que cansou de esperar e de repente é “surpreendido pela alegria”, como diz C. S. Lewis ao relatar sua incrível experiência de conversão, Zacarias mal consegue acreditar no que está vendo! Aquele “brilho súbito no ar” o surpreende trazendo palavras de encorajamento, “Não tenha medo, Zacarias!”, com a notícia que ele havia já havia desistido de esperar!


Estupefato, Zacarias tenta dar algum sentido às palavras do anjo.

Tomado por uma alegria indescritível, Zacarias só quer ir correndo para casa e contar tudo a Isabel. Mas o anjo continua falando, dando instruções sobre a dieta do menino e dizendo algo sobre este ser cheio do Espírito Santo antes do seu nascimento... O anjo fala, não só da criança que irá nascer, mas de velhas profecias que ele, o velho sacerdote, já se cansou de repetir no templo como sendo antigas promessas do Senhor Deus ao seu povo. Citando palavras de Isaías e de Malaquias, diz que o seu filho "irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos”; e diz que este menino está destinado a deixar um povo preparado para o Senhor!


De repente Zacarias dispara a pergunta que o está sufocando: Como posso ter

certeza disso?


Zacarias, o homem da palavra, das explicações lógicas e argumentos irrefutáveis, precisa de evidências concretas. Ele precisa ver para crer. Não pode ser um crédulo simplório que fica vendo anjos por aí. Aliás, esse anjo também precisa ver! Não há como negar uma realidade que está escancarada na carteira de identidade que ele apresenta ao anjo: “Você não enxerga? Olhe bem para mim: Eu sou um velho! E minha mulher é de idade avançada.”


E, para sua surpresa, o anjo replica: “E eu sou Gabriel. Sou um servo. Estou sempre na presença de Deus, e estou aqui porque Ele me enviou para lhe transmitir estas boas novas. Não são palavras minhas, mas do meu Senhor. Eu não trago certezas, trago um chamado à escuta e à obediência. A certeza que lhe dou é esta: que a palavra de Deus se cumprirá no tempo oportuno.”


Então, depois de um curto silêncio, o anjo acrescenta: “Mas vou lhe dar um sinal:

“Agora você ficará MUDO. Não poderá falar até o dia em que isso acontecer.”


A resposta do anjo o atinge como um balde de água fria, e ele se dá conta do paradoxo: ele acaba de receber a melhor notícia da sua vida, e não poderá contar para ninguém?! Ele está “grávido do impossível”, mas está impedido de compartilhar com os outros a sua alegria, de contar que foi visitado pelo sobrenatural, de dar explicações e apresentar provas... Justo no momento em que mais precisaria falar, Zacarias é emudecido ...até que ele veja ACONTECER e a palavra DO SENHOR se cumprir, superando as suas declarações e argumentos irrefutáveis, suas pretensas garantias e ilusórias certezas! Ele, que tantas vezes ensinou sobre as promessas e o agir de Deus, agora passará a vivenciar CALADO, na intimidade e como aprendiz, a manifestação incontestável do mistério de Deus. A MUDEZ como sinal da graça de Deus que é comprovada no silêncio, na escuta e na espera.


A certeza não vem pelo convencimento, mas pelo silêncio submisso. Não se trata de “acreditar em anjos,” mas de aprender a discernir a voz e o agir de Deus vivendo na presença de Deus. À medida que esse milagre improvável for se manifestando, visível e palpável, no corpo da sua esposa, Zacarias irá aprender uma nova linguagem e vivenciar aquilo que a oncologista Lucila Soares da Rocha testemunha no Posfácio do mencionado livro QUANDO A ALEGRIA NÃO VEM PELA MANHÃ:

pequenos milagres que o meu ceticismo é incapaz de explicar.

Um grande milagre que Isabel irá constatar no próprio corpo e declarar, exultante:

Isto é obra do Senhor!

“Fé”, diz o autor da Cartas aos Hebreus, “é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Palavras que encontram eco em outra exclamação de Isabel, no momento em que as duas agraciadas se encontram – Maria, a virgem grávida do Filho de Deus, e Isabel, a estéril idosa que carrega no ventre o precursor do Salvador do mundo:

Feliz é aquela que CREU que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!
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