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  • Foto do escritorSilêda Silva Steuernagel

Currulepe


Você pode escutar este episódio clicando aqui.


Olá!

Meu nome é Silêda, e este é o Entrelinhas, o nosso ponto de encontro.

No primeiro episódio Valdir contou um pouco da história dele, de Santa Catarina. Já eu sou Silêda SILVA, nasci no interior do Maranhão e cresci comendo tapioca e cuscuz de arroz. Mas então, como é que a gente se encontrou e virou SILVA STEUERNAGEL?


Hoje vou contar contar um pouco da minha história.


Eu sou filha e neta de sertanejos do interior do MA.


No início do século passado, meu avô materno, Patrício Cavalcante, ganhou um Novo Testamento na feira do povoado onde vendia os parcos produtos da roça de seus pais. Semianalfabeto, começou a ler o Novo Testamento escondido no paiol de milho; escondido, porque diziam que a Bíblia era “o livro do capeta”. Depois, aguçada a curiosidade, ele foi procurar alguém que lhe explicasse mais sobre esse Jesus do livrinho; e acabou se convertendo ao evangelho de Cristo.


Vovô Patrício era um autodidata e um músico nato. Contam que ele fabricava os seus próprios instrumentos musicais e que o grave da sua voz era imbatível. Depois que encontrou Jesus, ele passou a usar a sua voz para espalhar o evangelho pelo interior do Maranhão. Viajava de mula, pedia rancho (pousada) numa casa e pedia aos donos permissão para convidar os vizinhos para uma cantoria à noite. Então começava a cantar e depois falava de Jesus do jeito que sabia. Nessas suas “andanças do evangelho” pelas veredas do sertão maranhense, às vezes ele pousava na casa dos meus avós paternos; e foi assim que meus pais se conheceram, aos oito anos de idade, porque vovô levava a filha pequena na garupa para ajudá-lo a cantar.


Meu avô paterno criava gado e era artesão de couro. Além dos chapéus e gibões de couro (aquela indumentária grosseira dos vaqueiros nordestinos) ele fazia selas, arreios e chicotes tudo tecido com muito capricho em belíssimos trançados de couro que ele mesmo curtia e tingia. E também fazia currulepes, as sandálias grosseiras de couro com solado de borracha que todo sertanejo calçava. Mal sabiam eles que um dia essas alpercatas rústicas perderiam lugar para as coloridas sandálias Havaianas, desfiladas no mundo inteiro pela Gisele Bünchen! Nem eu imaginava que um dia os currulepes do meu avô iriam se tornar, para mim, um símbolo sagrado, um semáforo sinalizador a orientar a minha jornada de fé e os entremeados da minha vocação. Mas esta história não tem sentido sem antes concluir a história dos meus pais.


Quando meu avô Joaquim Bina se converteu, construiu uma igrejinha em sua propriedade e mandou trazer de longe um professor para ensinar seus filhos a ler; queria que eles aprendessem a ler a bíblia; era uma espécie de “professor residente”. Mais tarde, mandou os filhos para uma pequena escola num outro povoado, no interior do Maranhão. Essa escola, iniciada por um casal de missionários ingleses com o objetivo de alfabetizar os filhos dos sertanejos convertidos, era uma espécie de casa-lar, em instalações muito rústicas, onde os jovens aprendiam a ler e escrever, amar a Bíblia e a viver junto com base em valores cristãos. Eles eram formados para “viver como Jesus” e anunciar o evangelho.


Foi lá que papai, um jovem vaqueiro de espírito livre, aguerrido e muito voluntarioso, teve um encontro com Jesus. Ele conta em sua autobiografia, intitulada "A Vida de um Servo" “Deus converteu o meu temperamento e me tirou do curral das vacas para cuidar de outro rebanho”. Ele estava se referindo, diria mais tarde, ao Salmo 78 que diz:


"Deus escolheu o seu servo Davi e o tirou do aprisco das ovelhas, do pastoreio das ovelhas, para ser pastor do seu povo. De coração íntegro Davi os pastoreou; com as mãos experientes os conduziu"


Papai iria aprender isso no decorrer da vida. Dali ele foi para uma escola bíblica, onde minha mãe já estudava e lecionava. Casaram-se e ele tornou-se um pastor e pregador do evangelho, viajando pelo interior em lombo de mula, atravessando rios a nado, sofrendo perseguições... São memórias que eu tenho da minha infância. Quando o Instituto Bíblico foi transferido de Barra do Corda, onde morávamos, para a capital, papai foi convidado a ir como professor. E nós, como tantas famílias rurais que migram para a capital, fomos viver na periferia de São Luís, MA, entre a Rua da Aurora e o chamado “Caminho do Inferno”. E valia o nome!


Papai, além de um educador nato, era um pregador apaixonado e contagiante. Logo começou a evangelizar, junto com alunos e professores do Seminário, alcançando as pessoas do bairro humilde e infestado de terreiros de macumba. Ali nasceria a primeira de muitas outras igrejas que, a partir de novos pontos de pregação, foram sendo plantadas em São Luís, a maioria delas na periferia ou nas vilas de pescadores. A gente ia andando com um lamparina de querosene na mão, para iluminar o caminho, ou enfiando as pernas, os pés na lama dos mangues para atingir as vilas de pescadores


Nossa casa em São Luís era humilde e pequena, assim como a maioria das casas de palha e taipa ao nosso redor; mas era “um albergue”, tanto quanto havia sido a simples mas espaçosa casa de alvenaria lá no interior. “Lembrai-vos da hospitalidade” era um versículo decorado e praticado como parte natural da nossa vida. Não era incomum a gente adormecer na cama e acordar numa rede, pois durante a noite havia chegado alguém pedindo abrigo na casa do pastor. E em volta da mesa grande onde comia nossa família de onze filhos, nós repartíamos os poucos recursos, às vezes enriquecidos, com muita alegria, pelos ovos, frutas, galinhas que eles traziam para ajudar em casa. E sempre tinha o culto doméstico, a família inteira e quem mais chegasse ou estivesse hospedado conosco. Ali, junto com os “nossos" hinos herdados dos nossos avós e que ainda hoje são cantados nos nossos encontros de família, a Bíblia era o livro-texto da nossa formação, aprofundada por longas reflexões em torno da mesa. Em nossa casa, o canto e a Bíblia, a igreja e os estudos eram pilares essenciais. Meus pais diziam que a gente podia não ter brinquedos, roupas boas, mas eles investiriam nos nossos estudos. Então, quando meus irmãos e eu entramos na faculdade (a primeira geração de universitários na família do meu pai), novos horizontes se abriram. Eu conheci a ABU – Aliança Bíblica Universitária, que me desafiaria a vivenciar a minha fé “fora do saleiro”. Eram tempos da ditadura militar, e eu me deparei com situações que testavam as minhas declarações de fé e me desafiavam a testemunhá-la com coragem e coerência “no ambiente mundano”, como se dizia, fora da redoma sagrada e protegida do meu lar e da minha igreja. Eu não era do mundo, era uma crente, mas estava no mundo. Na universidade a minha identidade seria testada a ferro e a fogo, quando eu percebi que ser cidadã do Reino exigia ousadia para viver os valores desse Reino como cidadã do mundo. Essa descoberta impactaria, inclusive, as minhas escolhas e a minha vida profissional.


Aliás, foi na ABU, já envolvidos os dois com o ministério estudantil, que Valdir e eu nos conhecemos em um encontro de estudantes no Sul do Brasil. Mais tarde, após concluir a minha formação em Letras e movida por uma profunda convicção de chamado para servir a Deus através da palavra escrita, eu aceitei o convite da ABU do Brasil para trabalhar em São Paulo como Secretária de Literatura e, como parte da equipe de obreiros que organizavam o primeiro Congresso Latino-Americano da ABU, congresso evangelistico que ficou na a história em 1976, Valdir e eu nos descobrimos, não só como colegas de trabalho nem como um “alemão batata” e uma “índia maranhense” que se apaixonaram, mas também como dois vocacionados e profundamente apaixonados pelas coisas do Reino. Passado o Congresso eu fui enviada de volta para o Nordeste, e passaríamos um ano distantes um do outro, Valdir ministrando no Sul do Brasil e eu como Secretária Regional no Nordeste e Amazônia, no final do ano nós nos casamos e eu vim morar no Sul. E ali começaria uma longa história de complementaridade e de cumplicidade vocacional, em vários lugares do Brasil e pelo mundo afora. Muitas destas histórias surgirão aqui no EntreLinhas, nas nossas conversas de mesa.



 


Mas hoje eu queria encerrar voltando à história do currulepe.


Um dia, muitos anos mais tarde, tendo vivido em muitos lugares, nossos filhos já crescidos e papai com seus oitenta e tantos anos de idade, estávamos relembrando histórias do passado e eu conteiao papai do meu encanto infantil pelos elaborados trançados de couro que o meu avô fazia; e lembrei dos currulepes. Papai deu uma risadinha e falou: “Ah, os currulepos! (assim que se chamavam lá) Mas o nome mesmo, ele disse, que a gente chamava lá no interior da minha infância, era salga-bunda.” Curiosa, eu indaguei a razão desse “nome irreverente”, como dizia o meu pai, dado àquelas grosseiras precursoras das sandálias Havaianas. Papai, que nunca perdia a oportunidade de uma boa lição, me explicou:


"Currulepo, minha filha, é uma onomatopeia; é o barulho que a sandália faz quando a gente anda: 'currulep'... Já Salga-bunda é aquilo que a sandália faz com a gente: à medida que o sujeito vai caminhando, percorrendo a estrada de chão, ela vai batendo atrás e atirando barro nas costas do sujeito; e a lama gruda na roupa que nem o sal quando se faz carne de sol".


Ele deu outra risadinha e disse: "A danadinha da sandália deixa as marcas no nosso traseiro pra gente não esquecer de onde veio.”


Aquilo gerou uma longa conversa sobre as estradas da vida.


Compartilhando histórias e aprendizados da sua longa trajetória ministerial, papai me alertou, mais uma de tantas vezes, para o risco do “salto alto” e a “arapuca dos tapetes vermelhos” que encontramos no caminho da vocação e da obediência. Ele falou das oportunidades, das tentações, dos perigos.


Ele me fez lembrar da exortação de Moisés ao povo de Deus, que diz em Deteronômio 4.9:


“Tenham muito cuidado para que vocês nunca se esqueçam das coisas que os seus olhos viram; conservem-nas por toda a sua vida na memória. Contem-nas aos seus filhos e a seus netos”


A importância do testemunho como um como retrovisor na caminhada da fé.


Naquele dia eu disse ao meu pai que se um dia eu escrevesse a minha autobiografia, o título seria SALGA-BUNDA. Ou CURRULEPE: Marcas de uma caminhada.


Porque relembrar a nossa história pode ser muito mais do que simplesmente resgatar memórias. Lembrar de onde viemos, por onde nós andamos e carregar as marcas que Deus deixou na nossa vida. É testemunhar a caminhada de Deus conosco, para glória de Deus.


Até o nosso próximo encontro!

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