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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Deus sente saudade

Eu venho tentando explicar a um amigo meu, que vive nos Estados Unidos da América, o significado da palavra saudade. E não está fácil, porque saudade é algo tão típico da língua portuguesa e tão peculiar a nossa sentimental alma brasileira! Por fim eu lhe enviei uma definição de Ruben Alves, onde ele diz que “saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que provou e aprovou”. Como meu amigo entende bem o espanhol, eu lhe mandei essa frase em português. Em retorno, porém, ele me pediu para explicá-la... Será que devo desistir?!


A gente tenta explicar a palavra saudade em outra língua mas, ao acabar de fazê-lo, parece que se tem em mãos apenas um punhado de retalhos. Até parece que o sentimento de saudade só continua sendo bem expresso pela palavra saudade. Coisas da língua portuguesa.


Mas Deus sabe o que é saudade. Ele sente saudade. Saudade de nós. Na sua alma ele guarda a vontade de nos ter ao seu lado.


Um passeio na viração do dia

Uma das cenas mais ternas e dramáticas da Bíblia, eu encontro no relato da criação. Aquele que nos fala da criação da terra e céus. Dos animais do campo e das aves dos céus. Do homem e da mulher. Tudo criado, o homem e a mulher são convidados por Deus para adorá-lo, viver em comunidade e exercer uma administração gerencial dos recursos naturais e animais. E tudo havia recebido de Deus o curto diagnóstico de que era bom:

“Viu Deus tudo quanto fizera e eis que era muito bom” (Gn 1.31).

Mas é no relato seguinte, quando se aborda o conflito de relacionamento entre Criador e criatura e onde emerge a figura da serpente, que Deus vai ao encontro da sua própria criação e esta parece estar muito longe de ouvir a sua voz e responder à sua sede de encontro.


A cena parece extremamente humana e aconchegante, mesmo que o ambiente esteja carregado e o silêncio seja tão pesado. Afinal, em um primeiro momento, nem a presença nem a palavra de Adão e Eva estão presentes, e surgem com alguma facilidade após alguma insistência de Deus chamando pelo ser humano. Pois é nesse ambiente que se diz que Deus andava no jardim pela viração do dia (Gn 3.8).


Tem outro amigo meu, gaúcho, que vai à casa do pai às seis horas da tarde para tomar chimarrão. Tomar chimarrão e bater papo na casa do pai, na viração do dia. Na hora da saudade da alma. Pois no texto mencionado é Deus que “sai de casa”e vai à casa de Adão e Eva para tomar chimarrão, comer bolo de tapioca ou tomar um golezinho de café na mesa da cozinha, na viração do dia... Para dizer “oi” e lembrar aos dois que ele se importa. Que ele os quer. Que tem saudade deles e gostaria de sentar numa roda e conversar um pouco. E assim o tempo e o espaço são testemunhas da voz de Deus que ecoa: “Adão, onde estás?”


A síndrome da “cara na porta”

Como o livro de Gênesis deixa transparecer, Deus dá com a cara na porta. De fato, a cena é ainda mais dramática. Quando eles desconfiam que Deus está se aproximando, fecham a casa e vão se esconder no matagal; longe de Deus. Eles não querem encontrar a Deus -- uma reação da criança que não morre nem dentro deles nem dentro de nós. Aliás, nem a si mesmos eles querem encontrar; não querem perceber o que fizeram e constatar o que lhes aconteceu. Parar diante de Deus é também como parar diante de um espelho. E eles não gostam do que vêem:

“Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo e me escondi” (Gn 3.10).

E começam a jogar a culpa adiante: a mulher que me deste, a serpente que criaste. . . Até parece coisa de criança a balbuciar uma desculpa esfarrapada, que se nega a ver a realidade da desobediência e o estrago do pecado. A continuidade da conversa é catastrófica! Mas não é isso que eu queria pintar aqui. O que eu queria dizer é que quando Deus nos busca, ele nunca nos encontra. Até parece que ele só nos encontra quando insiste na busca.


A pergunta salvadora de Deus, “Onde estás?”(Gn 3.9), revela a nossa ausência, o nosso distanciamento e a nossa crise de relacionamento... com Deus, com nós mesmos e com o outro. Quando Deus nos busca, nós sempre queremos fugir e só nos rendemos cabisbaixos quando concluímos que “não há outro jeito”. Até parece aquela cena do ladrão que “se entrega” só porque está absolutamente cercado pela polícia. Em outras palavras, se poderia dizer que a salvação nunca é por nós buscada, mas sempre nos é dada, e dada por Deus.


Deus sabe o nosso nome. Deus sabe a constituição do nosso DNA e caminha a segunda e a terceira milha da salvação, porque, se ele ficar ali esperando, o chimarrão ou o café vai esfriar, a noite vai cair e nós nunca vamos chegar. Deus pergunta por nós, mesmo quando não respondemos na primeira vez. Deus nos descobre nos nossos malfadados esconderijos e bate no nosso ombro, convidando-nos a olhar nos seus olhos. Deus estende os braços e nos convida para chorar nos seus ombros. E, sorrindo, quietinho, Deus nos convida a chorar o choro da salvação. Deus, pois, nos chama para a salvação. E nos chama pelo nome. Particularmente! Individualmente!


Deus sabe o nome do outro

É importante observar, no entanto, que Deus não se preocupa apenas comigo. Ele se preocupa, também, e na mesma proporção, com o outro e com o que eu faço com ele. Com o relacionamento entre as pessoas. E isso é muito importante.


Por vezes corremos o risco de querer transformar Deus no gênio da lâmpada -- à nossa disposição e pronto para satisfazer os nossos desejos. E buscamos a fé cristã como um produto individualista de consumo no supermercado da religião. Buscamos um Deus que olha para mim -- ciumentamente para mim -- e que satisfaz, não apenas as minhas necessidades, mas também os meus desejos. Mas felizmente Deus não é assim, nem se relaciona conosco desta forma.


Em primeiro lugar, é bom destacar que Deus não deixa Adão e Eva escaparem barato com o seu “nhem-nhem-nhem.” Eles precisam encarar a sua decisão e o seu ato e assumir as muitas e profundas consequências do que fizeram:

“O Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3.28).

Deus nos chama para si e para a realidade. Aliás, não há como separar um do outro; e ele não caminha por descaminhos escapistas, que escondem os fatos. Ele nos chama para olhar a realidade de frente -- mas sem nos deixar sozinhos em meio a ela e com ela.


Em segundo lugar, ele nos pergunta pelo outro:

“Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4.9).

Felizmente, nem a indiferença nem a segregação são características de Deus. Por mais longe que caminhemos, por mais duros e agressivos que procuremos ser, Deus se importa conosco. Mas, da mesma forma, ele se importa com o outro. Ele pergunta pelo outro. Ele pergunta por Abel. Até porque ele se importa com Caim.


Às vezes me parece que nós queremos não apenas que Deus se preocupe conosco, mas que ele deixe de se preocupar com o outro. E, egoisticamente, queremos Deus somente para nós. E, pior, nós não queremos que ele pergunte pelo outro. Pelo nosso colega de trabalho ou pelo nosso concorrente. Pelo nosso vizinho ou mesmo pelo nosso cônjuge. Pelo menino de rua ou pelo pobre da esquina. Não queremos que ele nos pergunte pelo outro porque nós não queremos nos preocupar com este. Não queremos saber nada da vida do outro... para que ir atrás de mais problemas? Assim vivemos esse nosso tempo da indiferença e da sobrevivência.


Mas pode-se até aprofundar a abordagem um pouco mais e dizer que queremos tratar o outro como a busca pela nossa sobrevivência o parece exigir, não prestar contas disso a ninguém e ainda estar bem com Deus.


Mas felizmente Deus não concorda com essa indiferença do caos, e diz que não. Não pode ser assim. Insistentemente ele pergunta pelo outro acerca de quem ele já sabe e com quem ele se importa:

“A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (Gn 4.10).

Deus não nos deixará descansar enquanto não respondermos a pergunta pelo outro. Ademais, Deus nos diz que a nossa relação com ele está intimamente ligada com a nossa relação com o outro. E a forma como nos relacionamos com o outro afeta e inclusive determina a forma como Deus olha para nós. Seja nos perguntando “Que fizeste ao teu irmão Abel?”, seja batendo em nosso ombro e dizendo “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21).


Deus sabe o nosso nome

Os nomes dos nossos quatro filhos começam todos com “M”; mas cada um tem o seu próprio nome. O meu problema é que, com a vinda do cansaço e dos anos, eu ando misturando os nomes. É “M” para cá, “M” para lá, eu acabo sempre trocando os nomes deles...


Outro dia, um dos “meninos”, gozando, disse que eu não acertava uma e sempre trocava os nomes deles. Eu repliquei que não, que eu sempre acertava -- só não na primeira tentativa; mas na terceira tentativa eu geralmente acertava. . . Acontece que Deus não troca os nossos nomes. Ele acerta na primeira. E o fala com firmeza e carinho. Mas ele não acerta só o meu nome, ele acerta o nome do outro também.


Parece que uma das nossas tentativas religiosas de hoje é a de que nós queremos ser filho ou filha única de Deus. Ou, em outras palavras, nós queremos Deus “só para mim”. E o mantemos razoavelmente ocupado com as nossas lamúrias e pedidos. Eu me arrisco dizer que Deus não tem paciência para essa nossa possessiva “síndrome de filho único”. E nem aceita ser transformado em nosso “amuleto sagrado”, a ser chamado e invocado nas esquinas mais diversas para estar a serviço das nossas mais variadas carências.


Pois, assim como Deus é o meu Deus, ele é também o Deus do outro. Ele é o meu Deus que me convida e desafia a responder à pergunta pelo outro. Assim como ele nos chama pelo nosso nome-- Adão, onde estás? -- assim ele pergunta pelo outro -- Onde está Abel, teu irmão?


Será que dá para entender que Deus tenha saudade, tanto de Abel como de Caim?

 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.


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