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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

É tudo pela fé...

...nessa loucura de Deus


Deve ser porque eu sou luterano

Há tradições e costumes que a gente vai construindo no decorrer do tempo. Se você é pastor, como eu, ir a uma festa de aniversário de alguém da igreja significa fazer a oração depois do parabéns e antes da comilança. Costumes que geram uma tradição.


Ao se chegar ao mês de outubro pode-se esperar que de algum lado venha um convite para uma palavra acerca da Reforma Protestante no aniversário da Reforma, em 31 de outubro. Ou, então, o pessoal da Ultimato pede que eu escreva um artigo sobre a Justificação pela fé, num número da revista que sai por esta época e que aborda o tema da salvação como presente de Deus. Deve ser porque eu sou luterano e se pressupõe que eu entenda um pouco mais do que seja a justificação pela fé... A questão, no entanto, é que a gente entende muito pouco desse negócio de justificação pela fé.


O risco de um aniversário de rotina

É até normal que o pessoal do aniversário peça que o pastor faça a oração. Afinal, ele é a pessoa que representa a religião. Por vezes, o próprio pastor faz questão disso. É, afinal, uma questão de preservação de mercado. Senão ele acaba ficando obsoleto. Mas essas coisas não são comentadas assim abertamente...


Muitas vezes, nessas ocasiões, a minha tentação é passar o bastão adiante. Há uma coisa adolescente dentro de mim que quer bagunçar tais situações. Quebrar os costumes. Protestar contra formas. Mas isso é problema meu.


No que se refere à Reforma Protestante o processo pode ser igual. A gente convida um protestante histórico para falar sobre a justificação pela fé porque crê que ele entende mais do assunto, o que pode ser um grande engano. Não seria bom convidar alguém de uma tradição pentecostal a falar sobre a Reforma? Afinal, a gente não deveria contratar sempre a mesma companhia para abrilhantar a festa de aniversário. E depois, um dos princípios da Reforma é que a Igreja precisa estar sempre em reforma. Num processo contínuo de questionamento próprio, compartilhamento mútuo e refazimento do ser igreja. A Reforma não pode ser engessada. Nem por um discurso histórico que meramente repete os seus princípios norteadores e fundacionais.


Afinal, o que a gente sabe sobre a justificação?

Uma das ilusões com que eu me tenho deparado é a de que “pastor sabe orar melhor”. É tão bonito ouvir o pastor orar com aquelas palavras bonitas, religiosas e incompreensíveis! Ele é o mestre das palavras e da religião. Abrilhante-se, pois, a festa. Mesmo que a oração simplesmente reverbere no salão de festas e não encontre guarida no trono de Deus.


Uma das ilusões é pensar que os filhos da Reforma saibam o que seja a Reforma. Ou que eles sejam os seus intérpretes maiores. E a gente acaba transformando o evento da Reforma num ato cultural.


Eu passei anos ouvindo os princípios básicos da Reforma. Acentuando a centralidade deles para a vida da Igreja e o exercício da fé. Eu posso trazê-los à nossa memória coletiva para enfatizar a sua importância e significado: Somente Cristo, somente a Escritura, somente a graça, somente a fé. E, ao repeti-los, eu percebo a sua densidade e essencialidade, quanto eles conseguem transmitir, de forma tão curta e suscinta. Falar do coração da própria fé cristã. Mas o problema é que eu sempre me afasto do que esses princípios atestam. Ou seja, eu pressuponho que compreender seja entender. E entender seja aceitar. Que o cerne da Reforma seja simplesmente uma questão de compreensão intelectual.


A continuação da Reforma, no seu desenrolar histórico, trabalhou com o pressuposto de que esta era uma questão de compreensão racional. Poderia ser transformado em postulado. Um programa teológico. Uma questão de cabeça. A ortodoxia, portanto, se tornou fria e a teologia correu o risco de se tornar algo distante, teórico. Não é assim que os postulados da Reforma não possam ser expressos de forma compreensível e inteligente. É que o seu significado está atrelado ao seu acompanhamento. Eles são uma espécie de orquestra que precisa vir acompanhada de dois instrumentos chaves: o Espírito e a fraqueza.


Quando o apóstolo Paulo escreve sua Carta aos Coríntios, quando ele se relaciona com uma igreja concreta, com desafios reais, ele faz alusão a estas duas dimensões. Não é possível conhecer as coisas de Deus, diz Paulo, senão pelo Espírito de Deus. Ou seja, as coisas de Deus são de Deus e só podem ser por nós recebidas na medida em que ele as revela, e só podem ser por nós entendidas na medida em que ele nos dá a intermediação do Espírito Santo. É só pelo Espírito que se compreendem as coisas de Deus. Assim diz Paulo:

“Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente” (1 Co 2.12, NVI).

É só pelo Espírito Santo, pois, que se pode ter um vislumbre do que seja a justificação pela fé.


Na sua carta Paulo diz, ainda, que foi até os coríntios em absoluta fraqueza e marcado por uma postura de ausência de conhecimento.

“Pois decidi nada saber entre vocês”, diz Paulo, “a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. E foi com fraqueza, temor e com muito tremor que estive entre vocês” (1 Co 2.2-3, NVI).

Essa é uma espécie de contramão essencial na caminhada da fé: a gente só consegue entender algumas coisas acerca de Deus à medida que a gente aceita que não consegue entender nada. É por isso que se diz que a fé cristã é uma fé revelada. É Deus que nos dá a conhecer quem ele é e o que ele deseja. A nossa contribuição é a nossa impossibilidade. A nossa fraqueza. A nossa perdição. É pela graça!


Eu poderia tentar dizer isso de um jeito mais organizado:


a) a Reforma Protestante sintetizou uma coisa fundamental: o fato de que a justificação é pela fé;

b) a justificação pela fé nunca pode ser primariamente compreendida pela nossa razão. Ela só pode ser aceita pela intermediação do Espírito Santo, que a coloca em nós como uma semente que quer desabrochar;

c) a experiência da fraqueza, onde estamos conscientes da nossa fragilidade, ignorância e pecado, constitui-se no terreno fértil para a compreensão do próprio Deus e da sua graça. E eu acho tudo isso fantástico. Coisa de Deus!


O reencontro com a graça

Se me for permitido falar um pouco mais da graça de Deus, eu queria voltar a afirmar a nossa impossibilidade de atingi-la. De compreendê-la. Sistematizá-la. Só é possível começar a “beliscar” a compreensão da graça de Deus quando se aceita que nada se sabe sobre ela. A graça só é experimentada como sendo de graça, e não como mérito, este grande inimigo da graça de Deus. E essa a grande tentação religiosa: a salvação pelas obras.


A salvação pela graça passa a ser importante na medida em que se percebe o quanto se está distante dela e quão profundamente se carece dela. Nós, como expresso em tantas e tão diferentes igrejas hoje, precisamos voltar a falar sobre a importância da graça de Deus e sobre a realidade da justificação pela fé. Não, em primeiro lugar, como elemento de testemunho, mas como sinal de conversão. A tradição da Reforma ganha em relevância quando ela se volta para dentro, reformando a própria Igreja. E não é disso que estamos precisando hoje?


 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.

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