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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Encontro, Diversidade e Complementação

Perdão, encontro e oportunidade

A fé cristã tem algumas marcas que lhe são distintivas. São elas que tornam a fé cristã tão bonita e desafiante. Entre essas marcas eu poderia destacar, por exemplo, a realidade do perdão. Não há como não necessitar dele. Hoje, pode ser um gesto impensado. Amanhã é uma palavra mal dita. Um tropeço na conduta ou um deslize no relacionamento. Como cristãos, vivemos do perdão de Deus e, baseados nesse perdão, somos inspirados e desafiados a nos perdoar mutuamente. Ademais, do ponto de vista da fé, o perdão é sinônimo de esperança. O perdão nos permite recomeçar. Seja na relação com Deus, seja na relação mútua. A realidade e a experiência do perdão são uma das marcas distintivas e bonitas da fé cristã, tornando-a profunda e desafiante.


Outra dessas marcas é a possibilidade do encontro. A fé cristã, sem a marca do encontro, seria muito mais pobre e mais árida. Eu tenho tido o privilégio de me encontrar com cristãos nos mais diferentes rincões deste mundo de Deus. Na Coréia eu posso estabelecer relacionamentos que têm a marca da "reverência asiática", mas que têm na base a irmandade que encontramos em Cristo. Na República Dominicana essa irmandade vem acompanhada da alegre "salsa" caribenha. Se num contexto a irmandade é silenciosa, como o seria a asiática, no Caribe ela é certamente barulhenta e carismática. Lugar quente, onde o encontro sem o sorriso e o abraço não é realmente um encontro. A fé cristã permite que pessoas diferentes se encontrem e experimentem um nível de irmandade que se constitui, também, em marca distintiva dessa fé. Nela se estabelece uma irmandade na qual somos iguais sem deixar de ser diferentes e somos únicos sem deixar de ser iguais. Assim, nesta crônica, eu quero falar sobre um desses encontros que tornam a fé cristã tão rica e desafiadora e tão mais bonita.



Eu sou uma daquelas pessoas que crê que Deus tem dado um momento especial de graça para a igreja , nesta geração e neste continente chamado América Latina. Nesse "tempo de oportunidade", a igreja chamada evangélica tem não apenas crescido mas também expandido e aprofundado o seu ministério nos mais diferentes segmentos e rincões deste continente. A gente pode ir a uma remota comunidade, escondida no interior do Equador, ou pode visitar as caóticas capitais de vários dos países através da América Latina e não deixará de encontrar um povo de Deus que quer viver e testemunhar da sua fé, de forma alegre, intensa e agressiva. Hoje se prega o evangelho em qualquer lugar e em quase todo lugar e se quer levar o testemunho desse mesmo evangelho aos mais diferentes setores e segmentos da vida social, econômica e política, seja dentro das fronteiras do continente, seja fora dele.


Mas, como é fácil imaginar, esta fermentação da fé cristã traz consigo uma série de riscos, desvios e conflitos. De repente a pregação do evangelho se torna superficial para que um número maior de pessoas responda de forma afirmativa ao apelo da "evangelização". Noutro momento se corre o risco de misturar aspectos do evangelho com coisas que fazem parte do mundo; cria-se, por exemplo, uma tal de teologia da prosperidade e do sucesso. Noutras vezes a nossa compreensão evangélica é invadida por valores culturais do contexto onde se vive e a ética vai ficando relativa e frouxa. Noutras vezes, ainda, se acaba brigando uns com os outros por compreensões diferenciadas e até secundárias dessa mesma fé. Ou, pior ainda, a gente acaba se incompatibilizando com o outro, a nível pessoal, ministerial e institucional, por questões de jogo de influência e luta pelo poder.


Unidade

Não é preciso fazer uma análise muito profunda deste processo de fermentação da iniciativa e da atuação evangélica para se concluir que muita dor e divisão, por vezes desnecessária, tem sido acumulada nesta caminhada. O mandato evangélico da unidade e do amor cristão tem sido pisado com força e frequência desnecessários em tantas e tão diversas ocasiões. A tal ponto isto é verdade que eu creio que hoje é importante que nós experimentemos uma conversão à unidade, assim como temos experimentado uma conversão à verdade e à nova vida. A unidade não é uma questão nem secundária nem opcional no que se refere à fé cristã. Ela é mandato divino, que precisa ser obedecido. Ademais, eu compartilho do sonho e da convicção de que a expressão coletiva da fé cristã, neste continente, precisa estabelecer processos que, com intencionalidade, sinalizem e facilitem a possibilidade, a necessidade e o desafio do encontro, seja a nível pessoal, comunitário ou institucional. Um encontro que seja sério, integro e profundo. Um encontro que tenha a coragem de amar e aceitar o outro na diversidade e esteja disposto a confrontar o outro em função do compromisso com a verdade e com a causa do próprio Reino de Deus. Um encontro que tenha a marca da humildade e da celebração do outro. Um encontro que se saiba parte de um corpo maior, que é o Corpo de Cristo neste nosso continente.


COMIBAM e FTL

Pois eu creio que fui testemunha de um desses encontros. Um encontro para o qual eu viajei longe, indo a cidade de Miami, nos Estados Unidos da América. Um encontro que se deu entre dois movimentos que têm sido levantados por Deus, neste continente, e que têm tido lá as suas rusgas em suas respectivas caminhadas históricas. Estou falando da Comissão Ibero-Americana de Missões (COMIBAM) e da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL).


A FTL tem lá os seus vinte e tantos anos de história e tem pautado a sua caminhada com a marca evangélica da vocação para a reflexão teológica. Uma igreja sem uma sólida teologia é uma igreja à mercê do ventos dos tempos. E uma igreja sem reflexão é uma igreja sem raízes. Pois a FTL tem querido se constituir numa dessas plataformas que facilitam o encontro de pessoas para uma reflexão que seja bíblica, comunitária, contextual e missionária. Sendo bíblica, esta reflexão afirma o caráter autoritativo da Palavra de Deus. Ao ser comunitária, afirma-se que a reflexão teológica é tarefa de todo o povo de Deus e acontece no ninho da vivência comunitária desta fé. Ao ser contextual, afirma-se que o lugar onde se vive e se reflete é importante na articulação e confissão dessa mesma fé. E, ao ser missionária, se quer afirmar que a reflexão teológica não tem sentido a não ser que esteja a serviço dessa igreja, que, por sua vez, também nunca é igreja para si mesma, senão igreja enviada ao mundo.


O COMIBAM é mais novo um pouco e tem na convocação e no desafio para a missão a sua vocação maior e distintiva. Dando uma ênfase especial à missão transcultural, o COMIBAM reflete e desafia esta própria igreja latino-americana que recém desperta para uma compreensão e prática missionária que não apenas recebe mas também aprende e está disposta a dar. Uma igreja que aprende a enxergar o mundo desde a perspectiva do desafio evangelizador e não quer e não pode sossegar enquanto houver pessoas, povos e nações que não tiveram oportunidade de ouvir, entender e responder ao evangelho de Jesus Cristo. O COMIBAM tem no despertamento, no mapeamento das necessidades e no desafio ao treinamento e ao acompanhamento os seus desafios maiores. Despertamento, porque muitas igrejas continuam a ter muita dificuldade em olhar para além dos muros da sua própria comunidade eclesial. Mapeamento, porque é preciso que se tenha uma visão dos lugares e nações que não têm tido a oportunidade de ouvir o evangelho. Treinamento e acompanhamento, porque o exercício missionário precisa ser revestido de conhecimento, compromisso, adequada estrutura pessoal e familiar e um cuidado pastoral e econômico que dêem condições para esse mesmo exercício da missão.


Como eu disse anteriormente, por vezes e momentos estes dois movimentos tiveram lá as suas rusgas. Umas provavelmente necessárias. Outras provavelmente desnecessárias. Enquanto um, por exemplo, achava que o outro estava demasiadamente envolvido em processos de reflexão, o outro considerava que o excesso de pragmatismo comprometia a profundidade da compreensão do próprio Evangelho.


Um ou outro desses movimentos teve a oportunidade de se encontrar, se escutar e se conhecer. E logo, surgiu a pergunta se não seria bom e necessário que representantes desses dois movimentos se sentassem a uma só mesa e pudessem, dessa forma, se conhecer mais profundamente, ler a Bíblia e orar em conjunto, compartilhar as respectivas experiências de vocação e ministério, aprender a entender a vocação e o ministério do outro, a fim de que as diferenças pudessem ser clareadas num contexto de desafio mútuo, a irmandade pudesse ser celebrada e um compromisso mútuo com a causa do evangelho pudesse ser solidificado.


Foi para começar a fazer isso que eu fui a Miami, a fim de participar desse encontro que, entre os dias 24 a 26 de abril de 1995, reuniu as lideranças da FTL e do COMIBAM. O encontro foi bom. Tivemos a oportunidade de nos abraçar como irmãos, nos afirmar em nossa respectiva vocação, nos comprometer a respeitar as nossas diferenças e a escutar um ao outro na consciência de que ambos os nossos ministérios têm a sua legitimidade vocacional e a sua necessidade ministerial.


Eu volto deste encontro como tendo sido, uma vez mais, agraciado por Deus. E volto marcado, uma vez mais, com a experiência da possibilidade da unidade na diversidade. E volto, não por último, renovado no compromisso com esta caminhada do Reino de Deus que me convida e me desafia a aceitar o outro na integridade e no universo da sua vocação à tentação dos diagnósticos geradores de abismos. Compartilho esta experiência com gratidão. E celebro o privilégio de me saber parte de uma grande e rica família da fé.

 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.

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