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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

O privilégio dos íntimos

Os dias são difíceis, muitos diriam. Em dado momento o assunto é doença. Seja numa casa pobre ou numa sofisticada mansão, o câncer é sempre câncer. A dificuldade de vencê-lo, o risco da morte, o confronto com a finitude -- tudo é muito parecido e universal e afeta qualquer um.


Noutro momento da vida o assunto é o relacionamento, que não deixa de gerar a sua dor, mesmo que seja a dor d’alma. É a doença do coração que diz “presente” quando a família se desencontra ou mesmo se separa. O jovem se droga, o sexo passa a ser desenfreado, o adolescente se torna incontrolável e o casal parece estar sempre discutindo. O único ponto de encontro passa a ser o desencontro. Relações humanas despedaçadas são, afinal, coisas que doem. São doenças.


E, não por último, aparece o tal do desemprego. Aliás, este parece estar cada vez mais presente nos dias de hoje. Está aqui e ali, na família e na parentada, e ninguém parece estar livre dele. Uma peste moderna que os de cima dizem ser inevitável e as estatísticas registram com frieza. O desemprego, no entanto, é portador do sofrimento. Pessoal e coletivo. A pessoa sofre no entardecer de um outro dia sem resultado. A família sofre com a ausência de perspectiva, o crescente tom de angústia e nervosismo e o saldo bancário que vai minguando.


Quando fazemos um diagnóstico do nosso tempo dizemos tratar-se de um tempo difícil, carente de perspectiva e soluções. Não é pois, à toa, que este é um tempo de tanta busca. Espiritual, inclusive. Os terreiros são procurados, as filas nos supostos contadores e controladores da sorte são intermináveis, os médiuns estão em voga e a sociedade sabe o nome deles; e as próprias igrejas ampliam e escancaram suas portas. “Igrejas 24 horas” a atender problemas e dificuldades em ritmo de 24 horas. Dias de angústia em busca de um ouvido e uma resposta.


Caminhando com os Salmos

Em dias como os de hoje, uma leitura recomendada poderia ser os Salmos. Uma leitura para os nossos tempos -- tempos de ansiedade e busca de ajuda. É numa literatura como os Salmos que a gente acaba se encontrando quando as emoções determinam fortemente a nossa vida. Seja para cima ou para baixo. Mais para baixo do que para cima.


Os Salmos nos falam da absoluta legitimidade de buscar a Deus nos momentos de crise e de dor, momentos de angústia e perguntas. Aliás, os Salmos nos falam de que este é o momento de buscar a Deus e retratam essa busca com uma transparência e um realismo humano surpreendente. Não há espaço para “maquiagens”e o salmista emerge com as suas perguntas, sua angústia e até a sua raiva e crise de fé. Há vezes em que ele mesmo não entende o que lhe está acontecendo. Aliás, às vezes nem a Deus ele consegue entender! O salmista, no fundo, é corajoso. Ele tem a coragem de dar voz àquilo que nós apenas pensamos.


Elevo a Deus a minha voz, e clamo,

elevo a Deus a minha voz, para que me atenda.

No dia da minha angústia procuro o Senhor:

erguem-se as minhas mãos durante a noite, e não se cansam;

a minha alma recusa consolar-se.

Lembro-me de Deus e passo a gemer;

medito e me desfalece o espírito. (Sl 77.1-3)


Denúncia e esperança

Quando o sapato aperta, a gente vai em busca de um sapato maior. Um novo momento na vida. Resolução de conflitos e resposta para perguntas. Tenta-se mergulhar, então, no presumível mundo mágico da resposta pronta e descomprometida. Quer-se a resolução do conflito, mas sem dor e compromisso. E é justamente isso que muitos caminhos religiosos de fundo cosmético oferecem: formule a sua pergunta, extravase a sua dor, pague a sua consulta e ganhe a sua resposta da divindade. E assim a gente parte, para viver, até a próxima vez, com essa grande mentira. Sem mudanças e compromissos. O triste é quando as próprias igrejas se transformam nessas centrais de atendimento a oferecer inexistentes caminhos mágicos.


O salmista não vende respostas fáceis nem aponta para caminhos prontos. Ele entra em contato com as suas perguntas mais profundas e conversa com Deus a partir das suas dúvidas e necessidades, sem que elas magicamente desapareçam. E este é um privilégio dos íntimos. O privilégio do relacionamento. O privilégio na caminhada da ausência de respostas prontas.


Às vezes pensamos que íntimo é aquele que consegue o que quer. A verdade, porém, é que íntimidade não é uma questão de coisa; é uma questão de relacionamento. Um relacionamento transparente que vive o encontro com o outro e com a própria realidade.


Na medida em que o nosso relacionamento se dá em torno a coisas ele é superficial. Coisificado. Quantitativo. Mas quando o relacionamento é real ele visa o encontro e o outro. É assim que Deus nos vê e é assim que ele quer que nos relacionemos com ele.


Muitas vezes, nos caminhos espirituais de hoje, se quer caminhar pelas veredas fáceis: “Peça com força que Deus lhe dará. Se ele não der é porque você não está pedindo com fé”. Caminho enganoso e superficial! Caminho mundado que valoriza a coisa, a conquista e o forte. Um darwinismo espiritual que nos diz que os espiritualmente fortes e saudáveis é que ganham as coisas. Os que conseguem manipular a divindade são os vitoriosos. Puro engano. Enquanto o nosso relacionamento com Deus for construído em torno a aparentes conquistas, vitórias e coisas, ele será superficial. Será um relacionamento com um deus de “d” pequeno.


Buscando a realidade do encontro

O relacionamento só se torna real, íntimo e profundo quando é construído na presença do outro e no silêncio. Mesmo que na ausência de respostas. No encontro com as perguntas assustadoras. O salmista, na ausência de respostas e no silêncio de Deus, parece questionar a própria essência de Deus. Ele formula as suas perguntas em torno ao que Deus tem de mais essencial e precioso: a sua graça e misericórdia.


Rejeita o Senhor para sempre?

Acaso não torna a ser propício?

Cesou perpetuamente a sua graça?

Caducou a sua promessa para todas as gerações?

Esqueceu-se Deus de ser benigno?

Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias? (Sl 77.7-9)


Uma pessoa que me ajudou nessa caminhada diz que o caminho para fora é o caminho para dentro. O salmista caminha para dentro da sua história com Deus de uma forma desnuda e assustadora. Agora, ele não faz as perguntas como um curioso ou um como inimigo. Ele as faz como um íntimo que busca a resposta e o olhar de Deus. As suas próprias perguntas são o berço da resposta. E essa resposta nasce de um profundo processo de reflexão e encontro com Deus. O salmista usa palavras que descrevem esse processo de incubação. Ele pensa, lembra e medita. Considera a si mesmo, a Deus e a sua relação com ele. Ele busca pelo diagnóstico na presença de Deus. Olha para a história e procura ver nela a ação de Deus -- a ação que se dá junto à história do seu povo. Olhando também ao seu redor, ele observa a natureza, perguntando pela criação de todas as coisas. E nesse processo ele encontra o Deus da misericória. O Deus do seu povo, o Deus dele. Não porque simplesmente o tenha encontrado, mas por ter sido encontrado por esse Deus:


Então disse eu: Isto é minha aflição:

mudou-se a destra do altíssimo.

Recordo os feitos do Senhor,

pois me lembro das tuas maravilhas da antiguidade.

Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios.

O teu caminho, ó Deus, é de santidade. (Sl 77.10-13)



O salmo termina sem nos dizer se o salmista está bem ou não. Se ele se sente melhor ou se as suas perguntas foram respondidas. O salmo termina com a afirmação daquilo que Deus é -- e isso é suficiente. Essa é a espiritualidade de Deus: da sua suficiência, do seu abraço, da sua presença.


O salmista não diz que em todas as situações Deus vai ser o mágico e prover as nossas necessidades. Este seria um deus muito pequeno. O salmista nos fala de um Deus universal e histórico, criador do céu e da terra e condutor do povo de Israel. Esse é o Deus em cujo colo a fé cristã se sente abrigada. É esse Deus que podemos invocar e que nos abraça em tempos de crise. Um privilégio dos íntimos de Deus.

 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.


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