Se não fosse ela...?
- Silêda Silva Steuernagel

- 12 de nov. de 2021
- 3 min de leitura
“Dona Abigail, posso...?”
Ela logo percebeu o pânico no rosto do jovem parado à porta da cozinha, onde ela corria de um lado para outro dando ordens aos servos. O cheiro de bolo assado e grãos torrados confundia-se com o da carne temperada no fogo. Lá fora, o vozeirão de Nabal recepcionava os convidados para a festa e comandava a tosquia das ovelhas e cabras, separando as que virariam churrasco, regado a muito vinho. Ele estava feliz: este ano o rebanho aumentara bastante, sem uma única perda durante a pastagem no Carmelo. Mesmo repartindo os lucros com os tosquiadores, ainda haveria muito couro, lã e chifres para negociar e alimento garantido para a família e todos os empregados.
“Entre”, disse ela, já com um copo d’água. “Sente-se e me conte.” Abigail era uma mulher bonita e movia-se com elegância entre as cortinas da grande tenda. Havia nela uma atração calma e serena que ofuscava o brilho das roupas que diziam a sua posição de senhora de toda aquela propriedade. E conversava.
“Lembra quando nós levamos as ovelhas para pastar no deserto? Lá é tenso. Tem muito bandido escondido pelas cavernas e é preciso muito cuidado para não assaltarem os rebanhos. Mas, desta vez, tinha um bando de homens que foram muito bons para conosco. Não nos maltrataram e cuidaram das nossas ovelhas dia e noite. Nos protegeram o tempo todo e nenhuma ovelha se perdeu. Mas agora, aquele bruto do seu marido...”
Seu coração disparou! O pavor que a assaltava cada vez que Nabal explodia correu-lhe pelas veias. Hoje, de novo, ele havia trocado cortesia por insultos, gentileza e dedicação por arrogância e avareza egoísta. Aos olhos desse dono-do-mundo obcecado por poder e riqueza, quem o servia era apenas um fugitivo e oportunista em busca de seus bens: Por que deveria eu pegar meu pão e minha água, e a carne do gado que eu abati para meus tosquiadores, e dá-los a homens que vêm não se sabe de onde?
“Ele pagou bem com mal, proteção com ingratidão”, diz o servo. “E agora a destruição paira sobre o nosso senhor e sobre toda a sua família.”
O que poderia fazer esta mulher num contexto dominado por um homem muito rico, rude e mau? Aliás, no seu cartão de visita sua mulher inteligente e bonita é listada junto com os seus bens. Seria ela uma aquisição entre as muitas posses desse ricaço chamado Tolo?
A denúncia da conduta intempestiva do padrão, no entanto, traz um toque de confiança: “Agora, leve isto em consideração e veja o que a senhora pode fazer.” Nabal é um empreendedor ousado e gestor zeloso, mas é explosivo e não aceita confrontos. Ele é um homem tão mau que ninguém consegue conversar com ele. Aí vem a tensão! Nessas horas medonhas, quando a destruição já paira sobre todos, é o olhar perceptivo de Abigail, seu toque tranquilizador, o copo d’água, que consegue conversar e apontar possibilidades. É diferente.
A postura de Abigail frente ao comportamento destes dois homens evidencia outros atributos femininos que podem trazer estabilidade e equilíbrio, ao invés de fertilizar competição e desavenças.
O pedido respeitoso de Davi seguia o costume de repartir parte dos lucros com os cuidadores e tosquiadores dos rebanhos na festa da tosquia. Davi, insultado pela resposta egoísta do arrogante Nabal, decide se vingar mostrando quem pode mais. E o temperamento explosivo dos dois irá gerar uma carnificina e aniquilar um povo inteiro.
A não ser que...
O servo correu para Abigail. Ela conseguia conversar. Tinha paciência, lucidez e sensatez para considerar o perigo e perceber a urgência à luz das possibilidades. E a eficiente administradora, mãe de família e responsável por alimentar tantos empregados, agiu imediatamente! Davi e seus homens participariam do banquete. O quinhão deles foi rapidamente encaminhado e ela assegurou aos servos que não os deixaria sós: “Vocês vão na frente; eu os seguirei.”
Ela precisava desse tempo a sós para acalmar o medo. Medo do perigo e do que iria acontecer quando Nabal descobrisse. Mas, depois de anos, ela aprendera a discernir quando calar e quando falar. E aquele tempo com Deus lhe daria força e coragem para não desistir.
Ao encontrar-se com Davi ela põe em prática o que aprendeu em suas próprias batalhas contra o medo, a brutalidade e a humilhação. Conviver com um Tolo ensinou-lhe sensatez; e, na prática da humildade, encontrou o segredo de focar no Verdadeiro Senhor. Assim ela confronta o homem que trava os combates do Senhor dizendo: Honre o Senhor com o seu proceder! Não cometa a insensatez de desonrar o seu nome e o nome do Senhor que o escolheu para liderar o seu povo!
E ele ouviu e aceitou. O presente maior seria a vida.
Bendito seja O SENHOR, que hoje a enviou ao meu encontro. Seja você abençoada pelo seu bom senso!
Publicado originalmente na Revista Ultimato, No. 376.



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