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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

A voz que vem do frio II

Ainda pensando em voz alta


O tempo parece passar bem rápido e já estamos chegando ao final deste nosso período na Noruega. Mas a Silêda e eu ainda estamos aqui e eu gostaria de continuar pensando acerca da nossa experiência nesta terra onde faz tanto frio. Mudamos de cidade, o inverno passou e nós dois temos feito longas caminhadas em meio a longas conversas e longos silêncios.


Stavanger, a cidade onde estamos agora, é rica e muito bonita. É rica por ser uma espécie de capital do petróleo; e isso, como sabemos, significa muito, mesmo na cara Noruega. A cidade é pequena para os critérios brasileiros, mas tem uma beleza marcada pelos lagos, pelo mar, pelas montanhas e pelas rochas. E tem muito de tudo isso. Anda-se para direita e se encontra um lago; vai-se para a esquerda e lá está o mar. Ao longe há imponentes montanhas onde ainda dá para ver neve.


Tudo isso fica ainda mais bonito com a chegada da primavera: a natureza parece querer explodir! O verde vai tomando conta da paisagem e a exuberância e a diversidade das flores chama a atenção – até a minha, apesar da minha tendência de não ver as flores, cores e detalhes. Mas a Silêda não deixa a oportunidade passar e aponta para o vigor daquela tulipa colorida, “uma flor que é difícil cultivar no Brasil”.


Outro dia fomos andar numa área belíssima. O azul do mar, o verde das várias ilhas, os navios passando com razoável frequência, tornavam o fim de tarde muito bonito. Mas logo adiante nos deparamos com uma plataforma petrolífera plantada no meio da água. Para nós, aquilo enfeava a paisagem. Acontece que ela traz dinheiro…


Nesta sociedade tem muito dinheiro. Todo mundo parece ter dinheiro e cada geração tem mais. “Neste país”, alguém me disse, “nós temos tido crescimento contínuo por 50 anos”. Isso significa que cada geração tem mais e vive um padrão de vida mais alto do que a anterior. Aqui só as pessoas mais velhas sabem o que é viver com limitação de recursos e poucos sabem, hoje, o que é dificuldade financeira. Geralmente há dinheiro para ir às compras, sempre se sabe quanto custam as coisas e a moeda é sempre a mesma. Como brasileiro, é até difícil entender esta realidade. Afinal, nos últimos 50 anos já tivemos várias moedas e passamos por inúmeras crises. Nem sempre há dinheiro para ir ao supermercado e houve épocas em que a agilidade do remarcador de preço era muito importante.


E assim eu chego ao primeiro item, que tem a intenção de estabelecer esta conversa entre aspectos da igreja daqui e a igreja no Brasil.


Cuidado com a abastança!


Não é muito difícil chegar à conclusão de que quem leva a vida cristã a sério melhora de vida. Isso não quer dizer, necessariamente, que tal pessoa passe a ter mais dinheiro. Mas é fato que ela começa a olhar as coisas de outra forma: o salário é gasto com a família, os filhos vão para a escola, a relação familiar torna-se prioridade e a própria casa é melhor cuidada. Como sabemos, o próprio evangelho é promotor de uma melhor qualidade de vida.


Mas esse processo tem um “outro lado” e o problema da avareza humana está sempre presente. Ademais, a nova geração tende a colher o fruto da geração da conversão e a distanciar-se da fonte geradora de mudança de vida. Temos assim uma ética que gera uma qualidade de vida que, por sua vez, tende a criar um distanciamento dessa mesma ética, produzindo uma qualidade de vida sem raízes. É preciso, pois, ter cuidado com a abastança, tanto pessoal e familiar como comunitária e social.


Aqui se percebe um pouco desse processo. O cristianismo contribuiu essencialmente para a construção do tecido desta nação. Aliás, este é um dos países mais democráticos e socializados que eu já vi. Um país que se preocupa em prover acesso à qualidade de vida a todas as pessoas e não permitir a instalação de uma grande diferença entre elas. Este é um lugar onde o mais rico não é tão mais rico e o mais pobre não é tão mais pobre. A própria fé cristã contribuiu para isso. Mas me parece que a nova geração necessariamente não sabe, nem quer saber disso. Ela usufrui da riqueza mas tende a perder as raízes que são o segredo desta sociedade.


O Brasil é muito diferente: nós somos os campeões da desigualdade social. É neste nosso país que a igreja evangélica está crescendo, e precisamos estar conscientes de que esse crescimento deve gerar uma nova ética social e política, para a qual as novas gerações devem ser conquistadas. E, se isso não acontecer, será porque há algum problema com o evangelho que estamos compartilhando e vivendo e com a igreja que estamos construindo.


Sempre olhando “para cima” e “para fora”


Nossos olhos são muito interessantes. Inquietos e rápidos, eles se movem com muita agilidade. Olhamos para cima e para baixo enquanto, com o canto dos olhos, damos uma espiadinha ao redor. Mas nossos olhos são teleguiados pelo nosso coração. Pelas nossas prioridades. Por aquilo que julgamos importante e valioso. Assim, nem todos vemos as mesmas coisas e nem todos nos sensibilizamos pelas mesmas coisas.


Existe um jeito de olhar que podemos chamar de “umbilicocêntrico”: é o olhar voltado para si mesmo. Preocupado com suas coisas. Preocupado em tirar vantagem em tudo. Construindo castelos e impérios com os próprios olhos. Olhos de desejo. Olhos de cobiça. Olhos a expressar o desejo da conquista e o brilho da acumulação. E disso ninguém está livre — nem eu, nem você. Nem a nossa comunidade de fé, nem a nossa denominação, nem a nossa sociedade.


Nossos olhos podem nos manter ocupados. Afinal, precisamos olhar para o que conquistamos. Supervisionar o que construímos. Manter a estrutura que edificamos e guardar a tradição que estabelecemos. Assim nos mantemos profundamente ocupados e justificamos nossa ocupação. Mas esta é uma preocupação umbilicocêntrica. Vivendo assim, tropeçamos nos percalços da vida e esbarramos no outro, a quem não vemos. Invadimos sinais que alertam para o perigo e não vemos “nem o lago, nem o mar, nem a tulipa”.


A fé cristã nos ajuda a ver e viver de forma diferente. O evangelho quer dirigir os nossos olhos. Quer nos levar a olhar “para cima” e “para fora”. Para Deus e para o outro, especialmente para o outro necessitado. A igreja não é banco de depósito, centro de manutenção nem agência de guarda. A igreja é lugar de adoração onde somos enviados para o mundo — em nome e a serviço de Deus, a quem adoramos.


Caminhando com a Silêda, ela chama minha atenção para o detalhe e para o pequeno: “Está vendo aquela flor ali?”, ela me cutuca. A igreja é o lugar onde cutucamos um ao outro: “Está vendo aquela pessoa ali? Veja só o que Deus fez na vida dela! E olha, aquele ali está precisando de ajuda!” Olhar “para cima” e olhar “para fora”, viver para Deus e servir ao próximo é um jeito de viver que honra a Deus, cria comunidade e dignifica a nossa vida de uma forma divina.


Aqui na Noruega eu encontro uma igreja bastante antiga, uma igreja que luta com sua relevância e sua atualidade. Uma igreja que tende a se preocupar consigo mesma e que precisa ser desafiada a olhar para a nova geração, para as novas fronteiras missionárias e para o que Deus está fazendo em outros lugares, dos quais o Brasil é apenas um.


E nós podemos e devemos aprender com essa igreja. Precisamos construir algo que dê suporte e continuidade para a nossa vivência de fé. Mas precisamos construir algo leve e fácil de ser desmontado. Algo que possamos “levar daqui para lá”. Algo que possamos transformar. Algo que esteja a serviço do nosso olhar para Deus e para o outro, especialmente o outro pobre, pequeno e carente.


Mas aqui também se vê um grande número de agências missionárias e um enorme envolvimento missionário mundo afora. E isso nós, também, como igreja brasileira, precisamos aprender: ser uma igreja que enxerga mais além de si mesma.


Somos contadores de história


Vez por outra ouço citarem aqui o nome de Hans Nielsen Hauge. Curioso, decidi buscar um livro que me contasse um pouco da história desse personagem. Descobri que Hauge foi um homem simples, que nem viveu muitos anos (1771-1824); destes, passou uma parte na prisão (1804-1814). Mas foi um homem que se deixou chamar e enviar por Deus. Um homem que desafiou o establishment da época e se tornou um pregador leigo itinerante. Por isso foi preso. Mas a chama renovadora do evangelho estava solta e a igreja e o país nunca mais seriam os mesmos. São histórias assim que precisam ser contadas, sempre novamente, num exercício delineador das nossas prioridades e como um convite para que cada geração se deixe chamar e enviar por Deus.


O povo de Deus é contador de histórias. Ele sempre novamente conta a história “daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9). O Antigo Testamento fala disso várias vezes e o chamado “credo histórico” expressa isso assim: Quando teu filho de futuro te perguntar, dizendo: “Que significam os testemunhos e estatutos e juízos que o Senhor nosso Deus vos ordenou? Então dirás a teu filho: “Éramos servos de Faraó no Egito: porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão (Dt 6.20-21).


A nova geração precisa conhecer a história para poder dar glória a Deus, perceber a beleza e o significado do que Ele faz e ser confrontada pela intencção sagrada de que Deus faça o mesmo com ela.


Essa passagem de geração para geração não é nem automática nem tranquila. Mas quando não acontece, a igreja vai envelhecendo. E este envelhecimento se vê acontecendo aqui, apesar de bonitas e importantes tentativas de alcance de uma população jovem. Mas o fato é que se leva um susto com muitas igrejas sem jovens, com cultos frequentados apenas por idosos. Com construções ficando vazias e estruturas ficando velhas. É importante, portanto, nunca esquecer as novas gerações, nem que para isso tenhamos de quebrar ritos e mudar estruturas. Comprar um sistema de som novo, mudar o horário do culto e admitir o volume acima dos decibéis da “minha confortabilidade”. Afinal este barulho é muito melhor do que o silêncio da ausência da renovação – o silêncio do vazio.


Estes meses passados aqui têm sido de enorme aprendizado, e agradeço a Deus por isso. Aliás, quem possibilitou isso foi a igreja daqui. Termino, portanto, com esta nota de gratidão e com a constatação de que todos fazemos parte da mesma igreja, que é o corpo de Cristo espalhado por este mundo afora.


Graças a Deus que a igreja é de Deus e Ele cuida dela. Vamos fazer a nossa parte com alegria, paixão e fidelidade.


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Publicado originalmente na Revista Ultimato.

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