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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Chamados para cuidar da natureza e se alimentar dela

O sol poente, o verde das árvores e o açoita-cavalo


Pela janela da nossa casa eu contemplo o sol, em sua majestade, se pondo com beleza e dignidade sobre um verde exuberante em que se sobressaem, altaneiras, muitas copas de protegidas araucárias. Forte, lindo e imponente, ele indica que o dia está chegando ao fim. Ao contemplar a belíssima paisagem eu me pergunto até quando esse verde se manterá, ou se o desenvolvimento urbano e a exploração imobiliária tornarão este cenário cinzento e sem vida e o pôr-do-sol mais triste.


Mas em Curitiba, onde moramos, acabar com este verde não é tão fácil. Anos atrás, ao construirmos a sede do Centro de Pastoral e Missão, onde atuava, a liberação do projeto demorou porque a construção implicava no corte de uma imponente árvore chamada açoita-cavalo. Finalmente a construção foi remanejada para proteger a árvore e esta passou a fazer parte do complexo. Apesar de não ter gostado da demora na aprovação do projeto, confesso que gostei da firmeza e rigidez dos órgãos envolvidos na sua avaliação. E nós, ao integrarmos aquela árvore no nosso projeto, contribuímos para que o verde ainda seja uma pequena realidade na cidade.


Lembro disso ao escrever este artigo que quer celebrar a criação de Deus e reconhecer o seu mandato a construirmos um ambiente de vida onde a natureza seja preservada, onde haja espaço e recursos para todos e a criação seja celebrada como um ato de Deus a cada pôr-do-sol.


Eu não canso de encantar-me com os dois relatos da criação sobre os quais vimos refletindo nesta coluna da Ultimato. Além de nos levarem ao reconhecimento de Deus como criador, eles nos presenteiam com a revelação de que somos chamados a participar no gerenciamento da sua criação.


No relato de Gênesis 1, Deus cria o homem e a mulher, abençoa-os e, ato contínuo, manda-os ocupar o espaço criado através do milagre da multiplicação, exercer autoridade sobre a natureza e os seus habitantes e extrair da terra o necessário para a sobrevivência, não apenas da raça humana mas de toda a criação carente de sustento (Gn 1:28-30). Em Gênesis 2, a orientação que Deus dá ao casal recém-criado tem outros contornos mas o mesmo cerne: cuidar do jardim no qual eles foram colocados e alimentar-se daquilo que Ele havia criado (Gn 2:8-15).


Há um enorme leque de aprendizados que se vislumbram a partir destas narrativas, mas me detenho a dois deles.


Da mentalidade do progresso para a cultura do cuidado

Nós somos, em grande parte, fruto de uma mentalidade do progresso, na qual o importante é extrair e produzir. A natureza torna-se uma fonte de matéria prima e qualquer coisa que se interponha a este objetivo tem de ser conquistada ou derrubada. Assim, extraímos os recursos naturais que encontramos e jogamos os detritos em qualquer lugar ou em qualquer rio; derrubamos tudo que seja empecilho para produzir mais e a melhor preço; e transformamos as nossas cidades numa selva de pedras, a natureza num espaço destruído, os nossos rios numa correnteza de dejetos e poluímos os nossos céus ao ponto de ofuscarmos o pôr-do-sol. E com isso julgamos estar progredindo.


Este, no entanto, é um progresso doentio e cresce o reconhecimento de que seguindo esse ritmo acabaremos impossibilitando a própria vida. As bruscas mudanças climáticas, os processos de desertificação, os incontroláveis índices de poluição (para citar apenas alguns exemplos) irão causar significativos índices de doença, morte e crescentes conflitos em busca de espaço limpo, clima saudável, água potável e recursos naturais necessários para manter a vida fluindo.


As palavras de Gênesis 1 e 2 nos convocam a um jeito de viver que aponte para o fato de que o mundo em que vivemos não é nosso e que não somos donos de nada, mas apenas gerentes de algo que nos foi confiado. Um jeito que nos convoca ao respeito pela criação e à gestação de uma cultura do cuidado, tanto para com a natureza como de um pelo outro. Um jeito consciente de que adorar a Deus produz respeito em relação ao outro e a própria natureza. Envolver-se numa cultura do cuidado é um ato de obediência a Deus.


Deus quer muito mais do que salvar a nossa alma

Deus nos criou para a convivência coletiva, a construção de uma cidadania justa e respeitosa e para a cogestão do meio ambiente, num ritmo que inclui o descanso. Nós, no entanto, parece que ignoramos isso, ao entendermos erroneamente a nossa vida com Deus como algo espiritualizado, enquanto na vida cotidiana seguimos o mandato do mercado. Transformamos a vivência da nossa fé em algo estreito e capenga, vivendo como se Deus só se interessasse pelas “nossas almas” e deixando o resto da nossa vida entregue às suas próprias leis, quando não à força do mal. É preciso resgatar a compreensão de que todas as áreas da nossa vida estão nas mãos de Deus e devem ser uma resposta ao Deus que nos criou por inteiro. Caso contrário estaremos reduzindo o próprio Deus, como se ele fosse um deus parcial com interesses parciais. O convite dos relatos da criação certamente não segue esta vertente. Pelo contrário, eles têm sintonia com o salmista (105:1) quando diz:

Dêem graças ao Senhor,

proclamem o seu nome;

divulguem os seus feitos entre as nações.


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Publicado originalmente na Revista Ultimato, ed. 350

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