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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Tem trabalho bom e tem trabalho ruim!

Trabalhar é bom, mas nem todo trabalho é bom.


Eu confesso que gosto de trabalhar. Assim como preciso reconhecer que isso chega facilmente ao nível da dependência. Alguns diriam que eu sou um workaholic (trabalhador compulsivo), mas não me é fácil aceitar isso. Tanto o gosto pelo trabalho como a dependência dele vêm da minha infância. Para o meu pai e a minha mãe, bem como para a cultura circundante, o trabalho era um dos valores mais sagrados. Dizer que alguém era “trabalhador” era de grande valor e dizia muito sobre essa pessoa. Assim, escrever sobre o trabalho, como venho fazendo nesta série, me traz um sorriso de satisfação. Melhor ainda é poder afirmar que Deus trabalhava bastante, gostava de trabalhar e o fazia com eficácia. (Ainda que, com isso, eu possa estar reforçando um vício meu.)


Um bom jeito de evitar que o trabalho se transforme em vício é procurar qualificá-lo,

evitando que ele se transforme num valor em si mesmo. Ou seja, trabalhar é bom, mas nem todo trabalho é bom. O trabalho é bom quando se torna um gesto sagrado, e isso acontece quando ele está em sintonia com o trabalho de Deus e a serviço dos propósitos de Deus. O trabalho é bom quando representa uma contituidade do trabalho de Deus através de nós. Conforme diz Eugene Peterson, "quando vamos ao trabalho, isso não deve acontecer de qualquer jeito, mas ser congruente com a forma como Deus trabalha". Essa congruência deve acontecer tanto na forma como no resultado desse trabalho, e sobre isso refletiremos um pouco mais.


O trabalho é bom quando nos aproxima de Deus e do outro, especialmente de quem passa necessidade ou está em dificuldades. Por outro lado, diríamos que o trabalho é ruim quando busca a independência de Deus e produz a separação do outro. Caim, na Bíblia, poderia ser citado como um exemplo desse esforço. Ele certamente trabalhou muito para edificar uma cidade, mas o fez tanto por rebelião contra Deus como para fugir da memória do irmão que ele havia assassinado. É importante assinalar que o modelo de Caim acaba sendo realidade também em nossas vidas e em nossas sociedades, quando tentamos afirmar nossa autonomia e suficiência através daquilo que fazemos e quando o que fazemos tem a intenção de separar-nos do outro, fazendo sentir-nos superiores. Na cura relatada em João 5, que vimos no artigo anterior, vemos o Mestre modelando o que Caim não fez: Jesus trabalha em sintonia com o trabalho do seu Pai, e nesse trabalho ele vai ao encontro de um paralítico e o faz andar. Restauração!


O bom trabalho constrói comunidade e prepara o futuro para as próximas gerações. O reverso desta afirmação é que o trabalho é ruim quando é feito por interesses próprios e visa o mero consumo imediato. Em Neemias 5 temos um exemplo vívido dessa realidade e de sua mudança. Quando os pobres buscam Neemias para lhe expor sua situação de sofrimento, carestia absoluta e comprometimento do futuro dos próprios filhos, que eles se viam obrigados a entregar como escravos na dependência de uns poucos ricos, ele acolhe o lamento e a crítica deles e responde com força e firmeza. Chama esses ricos exploradores, confronta-os com a realidade e convoca-os a repararem o erro e estabelecerem um novo quadro de convivência comunitária. E esses "nobres e oficiais" respondem positivamente, contribuindo para a formação de uma nova realidade social.


A Bíblia aponta, assim, para a denúncia do trabalho explorador e para a busca de modelos mais igualitários e comunitários, uma carência que marca ainda os nossos dias. Isso é tão verdade quanto uma história que ressoa em minha memória até hoje, pois a ouvi dos próprios lábios de uma menina. Ela se viu envolvida em trabalho escravo para pagar uma dívida que a sua família havia contraído junto a agiotas, com o fim de possibilitar uma cirurgia à qual o seu pai precisava se submeter. Como uma espécie de Neemias de nossos dias, o projeto no qual ela foi amparada procurava libertar esta e outras crianças da escravidão, afirmar sua identidade e estabelecer processos de denúncia de um sistema iníquo e opressor. Assim ela e tantos outros ao seu redor não se veriam numa situação em que teriam de pagar a dívida dos seus pais, mas onde os pais pudessem apostar no futuro dos seus filhos.


Esse trabalho que nos aproxima do outro constrói comunidade e viabiliza a vida para amanhã, constituindo-se em profundo encontro com a nossa humanidade e, ao mesmo tempo, permitindo-nos “pisar em terra santa” – a terra criada e sustentada por Deus. Esse trabalho é experimentado como vocação, a vocação para adorar a Deus através do que somos e do que fazemos. Vocação que investe na construção de uma comunidade que se sabe cuidada por Deus e busca pautar-se pelos valores do amor, da justiça e da esperança. A vocação que aprende a dizer, como Pedro: "Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo".


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Publicado originalmente na Revista Ultimato, ed. 345

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