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  • Foto do escritorValdir Steuernagel

Para falar das flores

Eu nunca tinha visto aquele tipo de rosas. Elas eram fantásticas! Disseram-me que o seu nome era "rosa de Pentecostes". Exuberante e frágil. Intensa na cor. Abundante em pétalas. Digna de Pentecostes!


Esse tipo de rosa desabrocha no tempo que, no calendário eclesiástico, chama-se Pentecostes -- daí o seu nome. É o tempo em que a primavera chama pelo verão, naquela pequena e bucólica vila chamada Rasa, escondida em plenos Alpes suíços. Foi lá que eu a encontrei, enquanto participava de um seminário intitulado "Revisão de Vida". Fiquei fascinado por ela! Pentecostes, ademais, é um tempo extremamente bonito para o brotar das rosas.

TEMPO DE PENTECOSTES! TEMPO DE ROSAS!

É até possível que eu não tenha muito jeito para observar rosas. Além do olho clínico, falta-me também o olho artístico. Aquele olho que observa a beleza das curvas e dos detalhes. É que o meu olho clínico tem estado voltado para as formulações e o meu olho artístico tem sido atropelado pela atividade. Pelo trabalho. Pelas coisas.


A grande maioria de vocês, que me leem nesta coluna, não me conhece. Mas os que me conhecem devem estar estranhando o fato de eu estar falando de rosas; de flores. Afinal de contas, eu sou uma dessas pessoas que não costumam ter nem olhos nem tempo para flores. Cultivar flores é coisa para mulheres, diz um dos valores da minha cultura. As flores não põem o pão na mesa, me diz um outro valor, que serve à cultura do trabalho (não daria para plantar verduras nesse espaço?...) no qual eu cresci. E, além disso, homem que trabalha não tem tempo para olhar flores.


Assim, olhando em retrospectiva para a minha vida, eu concluo que, mantendo-me ocupado correndo e fazendo coisas, eu nem sentia falta das flores... E eu gostava desse meu jeito de viver! Gostava das coisas que eu fazia. E, mais do que isso, transferi para o meu próprio ministério cristão esta compreensão de vida: correr e fazer; estar ocupado e não ter tempo. Sem lamentos e vacilações. Eu corri muito e me engajei profundamente na obra do Senhor. Viajei pelo Brasil e pelo mundo. Participei e organizei inúmeros eventos, congressos, seminários e reuniões. Preguei, palestrei e escrevi com avidez e determinação. Mas, de alguma forma, não havia lugar para flores na minha vida. Eu nunca havia parado diante da rosa de Pentecostes.


A minha compreensão e vivência de fé cristã acabou se tornando escrava de um ativismo que é primo íntimo desta tentação que mede o resultado e o fruto das coisas a nível de números e quantidade: muita viagem, muito trabalho, muita reunião, muito papel, muita palavra, muito... Mas a alma parece que vai sendo esquecida. E, triste, ela murcha.


Foi nesse contexto e nesse momento que Deus veio ao meu encontro e me disse que eu precisava aprender a olhar as flores. E diante de mim estavam as rosas de Pentecostes. Formosas e belas, a esconder uma revelação de encanto a cada novo encontro. E, faceiro, eu concluo que fui ministrado por Deus, pois Ele me mostrou a rosa de Pentecostes. Eu começo, ainda, a ter essa sensação, dentro de mim, que me diz que as flores precisam fazer parte também do meu ministério.

É TEMPO DE OLHAR AS FLORES

Henry J. M. Nouwen, em seu livro The Wounded Healer, fala sobre o ministério cristão como o ato de ajudar o outro a "ver a flor". Diz Nouwen:


"Um líder cristão não é um líder porque anuncia uma nova idéia e tenta convencer outros sobre o valor desta. Ele é um líder porque ele olha o mundo com expectativa, especializando-se em descortinar o véu que encobre o potencial de vida escondido. O exercício da liderança cristã é chamado de ministério precisamente para expressar que é no serviço aos demais que brota a nova vida. É este serviço que nos dá olhos para ver a flor brotar na rachadura do asfalto, no canto da rua; ouvidos para ouvir a palavra de perdão que fora afogada pelo ódio e pela hostilidade; e mãos que percebem o irromper da nova vida que está presente sob essa camada de morte e destruição."


Eu sei que tenho um longo caminho a percorrer nesta minha descoberta das flores. O quanto é preciso mudar para, de fato, aprender a contemplar as flores, isso eu não sei. Mas espero não esquecer que a rosa de Pentecostes é muito bonita. Ademais, ela me dá testemunho de um Deus que não apenas sabe o que faz, mas faz o que faz com beleza e estilo. E, não por último, a rosa me convoca a descobrir e adorar a Deus também através das coisas que Ele faz. Pois, como diz o salmista: "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo." (Sl 19.1-4a). É claro que a minha alusão às flores, nesta crônica, é simultaneamente literal e simbólica. São coisas explícitas e implícitas que estou compartilhando. Eu queria levar a imagem adiante, um passo mais, movido por esta simples e intrigante pergunta: mas, afinal, por que eu não posso continuar correndo e estou sendo desafiado a descobrir as flores?


EU VI AS FLORES... E DEUS ESTAVA COMIGO!

1. Eu preciso parar diante da flor porque ela expressa, de forma ativa-passiva, quem é Deus. Eu percebo, por exemplo, que nós temos uma bonita teologia da criação, mas uma pobre relação com a própria criação. Temos sido filhos dessa mentalidade que olha para a natureza de forma utilitária: para que me serve isso? A natureza seria muda, e nós a tratamos como mero objeto de exploração. E, então, é claro que não temos tempo para as flores. "Manda vir o trator, por favor", e lá vamos nós para uma nova construção/exploração. Então eu me sinto convidado por Deus a romper com esta "viseira do progresso", para logo redescobrir uma natureza que me fala de um Deus que cria do nada e cria de forma perfeita a rosa de Pentecostes.


2. Eu preciso da flor para reencontrar a graça e o descanso. É interessante observar, por exemplo, como o evangelho inter-relaciona e contrapõe a beleza do lírio com a nossa ansiedade pela vida e as coisas da vida e a prioridade do Reino de Deus (Lc 12.27-34). O belo lírio dá testemunho da suficiência e da graça de Deus e me convida a abraçar um jeito de viver em que a dependência e a suficiência de Deus sejam a marca registrada da vida cotidiana.


"Observai os lírios; eles não fiam nem tecem. Eu, contudo vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles... Não andeis, pois, a indagar o que haveis de comer ou beber, e não vos entregueis a inquietações... Buscai, antes de tudo, o seu reino e estas cousas vos serão acrescentadas."

(Lc 12.27,29,31)


A rosa de Pentecostes me fala pois, do cuidado de Deus.


3. Eu preciso da rosa de Pentecostes para reavaliar o meu conceito e uso do tempo. A nossa relação com o tempo costuma ser extenuante e conflitante. Estamos sempre atrasados e com coisas por fazer. À noite, vamos deitar com aquela sensação de que não fizemos tudo que estava programado fazer. Pela manhã, levantamos cansados pelo que deixamos de fazer no dia anterior e suspeitando que, uma vez mais, os itens da agenda do dia não caberão nas "poucas" horas disponíveis neste novo dia.


Pois a rosa de Pentecostes nos diz que ela tem o seu tempo... E no tempo apropriado ela brota, floresce e murcha. Cada coisa a seu tempo, enquanto nós vivemos atropelando etapas, nessa ilusão de que não temos tempo.


Quem, pois, com pressa corre, não vê as flores, não vê o outro e não encontra a Deus. Portanto, parar diante da rosa de pentecostes significa admitir que eu preciso mudar a minha relação com o tempo para que eu possa vir a contemplar a Deus e ter tempo para o outro e para mim.


4. Eu preciso da rosa de pentecostes para aceitar a minha fragilidade e encontrar-me com a minha própria morte. Admitir a fragilidade significa aceitar a realidade da morte. E nós fugimos desta e negamos aquela. Até o próprio exercício da fé cristã nós o transformamos numa aventura de força, coragem e poder. Fragilidade, nunca.


Pois a rosa de Pentecostes me diz que ela é frágil -- assim como a vida é frágil. Hoje a rosa floresce, exuberante, para amanhã murchar, extenuada. No dia seguinte as pétalas falam da presença da morte. A morte vem, com a sua dor e a sua beleza.


Algumas pétalas de uma dessas rosas eu as dei à Silêda, como lembrança da sua beleza, do nosso amor e do tempo que tivemos em Rasa. A pétala da flor murcha conserva resquícios da beleza de ontem e reforça o elo que mantém viva a memória e o amor. Assim é com a vida. E assim é com o ministério. A fragilidade aceita se transforma na força espiritual que se confia a Deus e tem vitalidade para compartilhar da fragilidade do outro. A morte admitida se transforma no prelúdio da eternidade, e viver passa a ser, não uma corrida, mas uma disponibilidade ativa que sabe viver o tempo da contemplação da rosa e o tempo em que a rosa deve ser dada ao outro, em sinal ativo de graça, companheirismo e misericórdia.


A rosa de Pentecostes ficou para trás, no tempo linear. Mas Deus haverá de colocar outras flores no meu caminho. Flores para serem contempladas. Flores para serem compartilhadas. Esperanças a serem desabrochadas. Ministério a ser vivido!

Que os meus olhos não deixem de ver as flores com as quais Deus quer ministrar e enriquecer esta minha vida, tão acostumada a correr...


 

Publicado originalmente na Revista Ultimato.

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